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O Miniconto ep.1: valor da honestidade

Conta-se que um profeta reuniu seus discípulos para falar sobre a honestidade. Ele disse:
- Em reino muito distante, um governador autoritário, que se achava acima das leis do estado, ordenou que dezenas de milhares de pessoas fossem empregadas em dezenas de milhares de vaga que seriam ocupadas por dezenas de milhares de cidadãos que pagaram para fazer as provas do concurso, que se dedicaram um longo tempo aos estudos para se preparem para a avaliação e que em seguida foram aprovadas. 

Anos depois, os representantes da justiça decidiram que as vagas ocupadas ilegalmente deveriam ser devolvidas ao poder público, as quais seriam destinadas novamente a ampla concorrência, conforme determinava as leis do país. Todavia, os posseiros que ocupava ilegalmente o cargo público se revoltaram contra os juízes e contra aqueles que defendiam a legalidade. Eles diziam que estavam sendo discriminados e que as pessoas que apoiavam a atitude dos juízes estavam tendo prazer na desgraça alheia. 

Devido aos protestos, as pessoas que apoiavam a constituição do país quase tiveram que se calar. Uma minoria, com um discurso eufórico, tentou calar a maioria. Os amantes da ilegalidade paralisaram o serviço público por um dia; foram às ruas, tumultuaram o trânsito das grandes avenidas e prejudicaram dezenas de milhares de pessoas que estavam trabalhando legalmente, só porque se achavam no direito de reivindicar emprego perdido de forma legal. Agora eu pergunto - continuou o profeta - vocês acham que essas pessoas são honestas?
Responderam um dos discípulos:
- De forma alguma, meu Senhor. Elas são usurpadoras do direito constituído e não respeitam a opinião alheia.
- Na verdade, na verdade, eu vós digo que as pessoas só valorizam a honestidade até o momento que ela não lhes traz prejuízos.

Por Geraldo Genetto Pereira
Professor, escritor, blogueiro, youtuber.
Formação: Licenciatura e Mestre em Letras pela UFMG.

A história da educação brasileira - resumo

No dia 15 de outubro de 1827 foi instituída a primeira Lei Geral da Educação Pública brasileira. É devido a isso que se comemora o dia do professor.

Em 1834, houve o Ato Adicional. Esta lei criou as Assembleias Provinciais e deu autonomia para às províncias legislarem sobre a instrução pública.

Em 1837, foi criado o Colégio Pedro Segundo. Objetivo da criação do colégio era forma a elite nacional, os altos quadros políticos, administradores e intelectuais do Brasil. Os alunos bacharéis em letras pelo Colégio Pedro Segundo poderiam estudar em qualquer faculdade do império sem vestibular.

Em 1870, os estudos secundários achavam-se entregues quase que exclusivamente a iniciativa privada.

A CONSTITUIÇÃO DE 1891. Com ela, eliminou-se o voto por renda e instituiu o “voto cidadão alfabetizado” do sexo masculino. Ela normatizou que o ensino o Ensino Primário era responsabilidade da província e o Ensino Secundário e Superior eram responsabilidade do império. Nela o Ensino Médio foi nitidamente seletivo. Os alunos vinham de classes sociais mais elevadas. Foi na Primeira República que houve a separação entre o Ensino Popular – Ensino Primário – Ensino Normal e Ensino Profissional. O Ensino Primário era para as classes sociais menos favorecidas – de 1ª a 4ª série; já o Ensino Normal era para a elite. Ela frequentava os melhores ginásios - O ginasial é um curso aristocrático, seletivo e predominantemente masculina. O acesso de pobre e mulher era raro – e escolas superiores. Para dificultar ainda mais a entrada no ensino superior, o exame de saída do Ensino Médio passou para exame de entrada no curso superior.

Houve reformas sucessivas da educação brasileira durante os anos 1911 e 1915. O exame de admissão ao curso superior passou a chamar “vestibular”. Além de passar nesse exame, exigia-se dos alunos o certificado de aprovação nas matérias do curso ginasial.

Em 1930, houve novas leis do Estado Novo. Nesta época Francisco Campos tornou-se o primeiro ministro educação do Governo Vargas. Foi neste período que surgiu grandes movimentos em defesa educação pública. O movimento denominado ESCOLA NOVA era responsável pelas reformas educacionais naquele Estado Novo - reforma do ensino secundário em 1831. A Escola Nova propunha que o Ensino Médio deveria ter como objetivo formar o homem para a atividade nos setores comerciais e industriais do Brasil e não mas o curso superior, uma vez que a finalidade de preparar o discente para ensino superior havia sido superada na Reforma Educacional Italiana, feito pelo ministro Geovane Gentile – ministro de Mussolini. Este movimento italiano tinha como objetivo "formar indivíduos capazes de tomar decisões." Nesta época, a educação básica na italiana era formada de dois ciclos: Ensino Fundamental de cinco anos e Ensino Complementar de dois anos. Em Liceus, o Ensino Secundário era dividido em três anos para Ensino Fundamental e quatro anos para Ensino Médio com o objetivo de preparar os alunos para o ensino superior. O ensino italiano tinha currículos diferentes, conforme a destinação dos candidatos. Havia o ensino clássico e ensino científico. No Brasil, apenas os cursos secundários preparavam para o vestibular. Sem o diploma do curso secundário, nenhum estudante podia candidatar-se ao exame. O exame de admissão ao curso secundário ocorreu com a Reforma Federal de 1925 e foi mantido na reforma das Leis de 1931.

O MANIFESTO EDUCACIONAL foi assinado por 26 educadores de grande prestigio. Entre eles estavam Anísio Teixeira, Afrânio Peixoto, Roquete Pinto. Havia na reforma educacional dois grupos que defendiam a educação. Os LIBERAIS ELITISTAS defendiam posições predominantes da elite. Enfatizavam que a necessidade de articulação de todos os graus e tipos de ensino deveria ser reformada. Este grupo priorizar os aspectos biológicos, psicológicos, administrativos e didáticos do processo educacional. O outro grupo chamado de LIBERAIS IGUALITARISTAS era formado por pessoas como Anísio Teixeira que condenava a discriminação social realizado pela escola segregacionista e propunha a abolição do sistema dual de ensino primário-profissional e secundário-superior e a criação de uma escola única para todos, evitando a separação entre trabalhadores manuais e intelectuais.

A CONSTITUIÇÃO DE 1934 assegurou o ensino religioso, normatizou a escola secundária, limitando o número de estabelecimentos secundários, rompeu com o monopólio estatal do acesso ao ensino de terceiro grau e homogeneizou o currículo.

LEI ORGÂNICA DO ENSINO SECUNDÁRIO de 1937 dividiu o ensino ginasial em quatro anos e o segundo ciclo com opção entre o clássico é o científico, conforme o modelo italiano. Ao fim de cada ciclo, havia o exame de licença, ou seja, o diploma, com o objetivo de garantir o padrão nacional de todos os aprovados. Para os alunos que não conseguiram admissão ao Ensino Médio e para os que desejam ingressar na universidade, havia a opção de cursos profissionalizantes de nível médio. A Lei Orgânica do Ensino Secundário de 1937 transformou o ensino profissional em ensino de grau médio. De 1920 a 1930 e na década de 1940 houve a expansão do setor privado graças aspirações e a mobilidade das camadas médias urbanas. Entretanto, nesta época das 629 escolas existentes no Brasil 530 eram particulares e mais de 30 por cento se localizavam em Pão Paulo (196 escolas).

A LEGISLAÇÃO DE 1942 definiu que quem quisesse abrir uma escola secundária deveria requerer inspeção do Ministério da Educação, o qual acompanharia as atividades durante dois anos. Nessa época, a educação profissional do Ensino Médio voltou-se à formação de forças de trabalho específica para os diferentes setores da economia e da burocracia. Havia o ensino industrial (de nível secundário), o ensino agrícola (primário), ensino comercial (terciário) e o ensino normal (para formação de professores para lecionar no Ensino Primário). O ensino técnico tinha três anos de duração com o quarto ano com estágio supervisionado na indústria. O ingresso em cursos básico profissional dependia da passagem dos concluintes do curso básico profissional para o primário e aprovação em exame de admissão. Já o ingresso em curso técnico dependia da conclusão do primeiro ciclo do Ensino Médio no mesmo ramo profissional. A passagem dos concluintes do curso básico profissional para o segundo ciclo do ramo secundário era proibida. Candidatos oriundos dos cursos profissionalizantes só poderiam prestar exames em suas áreas na faculdade. O curso ensino comercial de segunda classe requeria a pouca exigência. A Lei Orgânica de 1942 proibia ainda denominações colégio e ginásio aos demais estabelecimento de nível médio. Já a formação de professores se dava em dois níveis de cursos. A primeira formação de docentes para a primário com duração de quatro anos em escolas normais.

GOVERNO CIVIL MILITAR DE 1950 A 1980. Em 1950 houve a verdadeira evolução do Ensino Médio brasileiro, o qual abriu a possibilidade de os alunos cursarem o ensino profissional se transferir para o ensino secundário. Facultava-se aos diplomados do secundário o direito de se candidatarem aos cursos superiores. De 1950 a 1970 ocorreu a grande expansão do Ensino Médio decorrente do crescimento demográfico e da crescente pressão popular pela ampliação do ensino elementar. A pressão dos movimentos sociais populares ocorria nos grandes centros urbanos e industriais do país, como São Paulo. Esses movimentos levaram a expansão das oportunidades educacionais e à integração do primário e o primeiro ciclo do Ensino Médio, antigamente denominado ginásio de 5ª a 8ª série.

L D B E N DE 1961 deu equivalência aos cursos técnicos e secundários para efeito de ingresso em curso superior.

L D B E N 5692/1971 tornou obrigatório o ensino comum de oito ano, Ensino Fundamental, antigamente denominado “primeiro grau”, fundindo o Ensino Primário e o Primeiro Ciclo do Ensino Médio. O Ensino Colegial, o segundo ciclo, constituiu o “Segundo Grau”, hoje Ensino Médio. O segundo grau passou a ser generalizadamente profissional ou profissionalizante, com currículos orientados para habilitações profissionais. O objetivo era suprir uma suposta carência de profissionais de nível médio. Impôs-se então uma profissionalização obrigatória no Brasil. As consequências foram o empobrecimento do currículo, esvaziamento dos conteúdos de formação geral, indispensáveis para a formação crítica da realidade social e fracasso na formação técnica.

Alguns conceitos da LDBEN de 1971 estavam pautados pela TEORIA DO CAPITAL HUMANO, em que “os conhecimentos e habilidades constitui o capital humano”. Tal ideologia subordinava a educação às demandas do mercado de trabalho, acarretando a descaracterização e a maior desqualificação do Ensino Médio, reforçando a dicotomia “educação para elite e educação para o trabalhador”.

EM 1980. No início desta década, o governo militar flexibilizou a obrigatoriedade do ensino profissionalizante - Lei 7044/82. As matrículas de Primeiro Grau chegaram a 24,8 milhões e a de Segundo Grau a 3 milhões. A exclusão social no Ensino Médio agravou-se com a extinção do Plano Nacional de Educação do governo João Goulart, o qual obrigava governo destinar um mínimo de doze por cento dos recursos da união para a educação. O Plano Nacional de Educação só foi retomado pela emenda constitucional número 24 de 1983 e pela constituição federal de 1988.

REDEMOCRATIZAÇÃO DO ENSINO. A Constituição Federal de 1988 e a Lei de Diretrizes e Base da Educação Nacional de 1996 deram ao Ensino médio uma função formativa da etapa de conclusão da educação básica: infantil, fundamental, médio e educação de jovens e adultos. A educação básica passou a ser ofertada de forma adequada às necessidades e possibilidades da população de jovens e adultos com condições de acesso e permanência na escola. Houve ajustes na economia, acompanhado da presença de organismos internacionais para a orientação das reformas na educação. No governo Fernando Henrique Cardoso houve a desescolarização do ensino técnico e o predomínio do modelo de competência com o objetivo de atender a uma educação que vise demandas do mercado. A formação profissional transformou-se em instrumento da gestão individual das competências e dos atributos cognitivos dos assalariados na empresa e fora dela.

REINTEGRAÇÃO DO ENSINO TÉCNICO. A reintegração do ensino técnico aconteceu após fórum em defesa da educação pública e projetos de formação humana integral. Este evento propunha a superar a dualidade presente na organização do Ensino Médio promovendo a cultura e o trabalho, fornecendo aos alunos uma educação integrada ou unitária capaz de propiciar a compreensão da vida social, a revolução técnico-científica e da dinâmica do trabalho e da história.

DECRETO 515444/ 2004. O governo Lula reintegrou o ensino técnico ao Ensino Médio através deste decreto.

DECRETO 5840 /2006. Esse decreto estabeleceu o Programa Nacional de Integração da Educação Profissional com a educação básica na modalidade EJA.

PROGRAMA BRASIL PROFISSIONALIZADO DE 2007. Visou fortalecer as redes estaduais de educação e tecnológica por repasse de recursos federais aos estados.

PNDE 2011-2020. Tinha como objetivo universalizar, até 2016, o atendimento escolar para toda população de 15 a 17 anos através da meta 3. Já a meta 10 propunha oferecer, no mínimo, vinte e cinco por cento da vaga de EJA na formação de integração da educação profissional nos anos finais do Ensino Fundamental e do Ensino Médio.

JESUS, José Geraldo Pereira de. Resenha do Caderno 1 de Formação de Professores do Ensino Médio (págs. 01 a 26). MEC, 2013.
Por Geraldo Genetto Pereira
Professor, escritor, blogueiro, youtuber.
Formação: Licenciatura e Mestre em Letras pela UFMG.

o quatro pilares da educação - exercícios

Elabore três tipos de fichas (citação, resumo e analítica) com base no texto: “Os 4 pilares da Educação” de Jacques Delors.

CAPITULO 4

OS QUATRO PILARES DA EDUCAÇÃO
Dado que oferecerá meios, nunca antes disponíveis, para a circulação e armazenamento de informações e para a comunicação, o próximo século submeterá a educação a uma dura obrigação que pode parecer, à primeira vista, quase contraditória. A educação deve transmitir, de fato, de forma maciça e eficaz, cada vez mais saberes e saber-fazer evolutivos, adaptados à civilização cognitiva, pois são as bases das competências do futuro. Simultaneamente, compete-lhe encontrar e assinalar as referências que impeçam as pessoas de ficar submergidas nas ondas de informações, mais ou menos efêmeras, que invadem os espaços públicos e privados e as levem a orientar-se para projetos de desenvolvimento individuais e coletivos. À educação cabe fornecer, de algum medo, os mapas de um mundo complexo e constantemente agitado e, ao mesmo tempo, a bússola que permita navegar através dele.

Nesta visão prospectiva, uma resposta puramente quantitativa à necessidade insaciável de educação – uma bagagem escolar cada vez mais pesada já não é possível nem mesmo adequada. Não basta, de fato, que cada um acumule no começo da vida uma determinada quantidade de conhecimentos de que possa abastecer-se indefinidamente. É, antes, necessário estar à altura de aproveitar e explorar, do começo ao fim da vida, todas as ocasiões de atualizar, aprofundar e enriquecer estes primeiros conhecimentos, e de se adaptar a um mundo em mudança.

Para poder dar resposta ao conjunto das suas missões, a educação deve organizar-se em torno de quatro aprendizagens fundamentais que, ao longo de toda a vida, serão de algum modo para cada indivíduo, os pilares do conhecimento: aprender a conhecer, isto é adquirir os instrumentos da compreensão; aprender a fazer, para poder agir sobre o meio envolvente; aprender a viver juntos, a fim de participar e cooperar com os outros em todas as atividades humanas; finalmente aprender a ser, via essencial que integra as três precedentes. É claro que estas quatro vias do saber constituem apenas uma, dado que existem entre elas múltiplos pontos de contato, de relacionamento e de permuta.

Mas, em regra geral, o ensino formal orienta-se, essencialmente, se não exclusivamente, para o aprender a conhecer e, em menor escala, para o aprender a fazer. As duas outras aprendizagens dependem, a maior parte das vezes, de circunstâncias aleatórias quando não são tidas, de algum modo, como prolongamento natural das duas primeiras. Ora, a Comissão pensa que cada um dos "quatro pilares do conhecimento” deve ser objeto de atenção igual por parte do ensino estruturado, a fim de que a educação apareça como uma experiência global a levar a cabo ao longo de toda a vida, no plano cognitivo como no prático, para o indivíduo enquanto pessoa e membro da sociedade.

Desde o início dos seus trabalhos que os membros da Comissão compreenderam que seria indispensável, para enfrentar os desafios do próximo século, assinalar novos objetivos à educação e, portanto, mudar a ideia que se tem da sua utilidade. Uma nova concepção ampliada de educação devia fazer com que todos pudessem descobrir, reanimar e fortalecer o seu potencial criativo revelar o tesouro escondido em cada um de nós. Isto supõe que se ultrapasse a visão puramente instrumental da educação, considerada como a via obrigatória para obter certos resultados (saber-fazer, aquisição de capacidades diversas, fins de ordem econômica), e se passe a considerá-la em toda a sua plenitude: realização da pessoa que, na sua totalidade, aprende a ser.

Aprender a conhecer
Este tipo de aprendizagem que visa não tanto a aquisição de um repertório de saberes codificados, mas antes o domínio dos próprios instrumentos do conhecimento pode ser considerado, simultaneamente, como um meio e como uma finalidade da vida humana. Meio, porque se pretende que cada um aprenda a compreender o mundo que o rodeia, pelo menos na medida em que isso lhe é necessário para viver dignamente, para desenvolver as suas capacidades profissionais, para comunicar. Finalidade, porque seu fundamento é o prazer de compreender, de conhecer, de descobrir. Apesar dos estudos sem utilidade imediata estarem desaparecendo, tal a importância dada atualmente aos saberes utilitários, a tendência para prolongar a escolaridade e o tempo livre deveria levar os adultos a apreciar, cada vez mais, as alegrias do conhecimento e da pesquisa individual. O aumento dos saberes, que permite compreender melhor o ambiente sob os seus diversos aspectos, favorece o despertar da curiosidade intelectual, estimula o sentido crítico e permite compreender o real, mediante a aquisição de autonomia na capacidade de discernir. Deste ponto de vista, há que repeti-lo, é essencial que cada criança, esteja onde estiver, possa ter acesso, de forma adequada, às metodologias científicas de modo a tornar-se para toda a vida “amiga da ciência” (1). Em nível do ensino secundário e superior, a formação inicial deve fornecer a todos os alunos instrumentos, conceitos e referências resultantes dos avanços das ciências e dos paradigmas do nosso tempo.

Contudo, como o conhecimento é múltiplo e evolui infinita-` mente, torna-se cada vez mais inútil tentar conhecer tudo e, depois do ensino básico, a multidisciplinaridade é um engodo. A especialização, porém, mesmo para futuros pesquisadores, não deve excluir a cultura geral. “Um espírito verdadeiramente formado, hoje em dia, tem necessidade de uma cultura geral vasta e da possibilidade de trabalhar em profundidade determinado número de assuntos. Deve-se, do princípio ao fim do ensino, cultivar, simultaneamente, estas duas tendências” (2)?. A cultura geral, enquanto abertura a outras linguagens e outros conhecimentos permite, antes de tudo, comunicar-se. Fechado na sua própria ciência, o especialista corre o risco de se desinteressar pelo que fazem os outros. Sentirá dificuldade em cooperar, quaisquer que sejam as circunstâncias. Por outro lado, a formação cultural, cimento das sociedades no tempo e no espaço, implica a abertura a outros campos do conhecimento e, deste modo, podem operar-se fecundas sinergias entre as disciplinas. Especialmente em matéria de pesquisa, determinados avanços do conhecimento dão-se nos pontos de interseção das diversas áreas disciplinares.

Aprender para conhecer supõe, antes tudo, aprender a aprender, exercitando a atenção, a memória e o pensamento. Desde a infância, sobretudo nas sociedades dominadas pela imagem televisiva, o jovem deve aprender a prestar atenção às coisas e às pessoas. A sucessão muito rápida de informações mediatizadas, o zapping” tão frequente, prejudicam de fato o processo de descoberta, que implica duração e aprofundamento da apreensão. Esta aprendizagem da atenção pode revestir formas diversas e tirar partido de várias ocasiões da vida (jogos, estágios em empresas, viagens, trabalhos práticos de ciências...).

Por outro lado, o exercício da memória é um antídoto necessário contra a submersão pelas informações instantâneas difundidas pelos meios de comunicação social. Seria perigoso imaginar que a memória pode vir a tornar-se inútil, devido à enorme capacidade de armazenamento e difusão das informações de que dispomos daqui em diante. É preciso ser, sem dúvida, seletivo na escolha dos dados a aprender "de cor" mas, propriamente, a faculdade humana de memorização associativa, que não é redutível a um automatismo, deve ser cultivada cuidadosamente. Todos os especialistas concordam em que a memória deve ser treinada desde a infância, e que é errado suprimir da prática escolar certos exercícios tradicionais, considerados como fastidiosos.

Finalmente, o exercício do pensamento ao qual a criança é iniciada, em primeiro lugar, pelos pais e depois pelos professores, deve comportar avanços e recuos entre o concreto e o abstrato. Também se devem combinar, tanto no ensino como na pesquisa, dois métodos apresentados, muitas vezes, como antagônicos: o método dedutivo por um lado e o indutivo por outro. De acordo com as disciplinas ensinadas, um pode ser mais pertinente do que outro, mas na maior parte das vezes o encadeamento do pensamento necessita da combinação dos dois.

O processo de aprendizagem do conhecimento nunca está acabado, e pode enriquecer-se com qualquer experiência. Neste sentido, liga-se cada vez mais à experiência do trabalho, à medida que este se torna menos rotineiro. A educação primária pode ser considerada bem-sucedida se conseguir transmitir às pessoas o impulso e as bases que façam com que continuem a aprender ao longo de toda a vida, no trabalho, mas também fora dele.

Aprender a fazer
Aprender a conhecer e aprender a fazer são, em larga medida, indissociáveis. Mas a segunda aprendizagem está mais estreitamente ligada à questão da formação profissional: como ensinar o aluno a pôr em prática os seus conhecimentos e, também, como adaptar a educação ao trabalho futuro quando não se pode prever qual será a sua evolução? É a esta última questão que a Comissão tentará dar resposta mais particularmente.

Convém distinguir, a este propósito, o caso das economias industriais onde domina o trabalho assalariado do das outras economias onde domina, ainda em grande escala, o trabalho in- dependente ou informal. De fato, nas sociedades assalariadas que- se desenvolveram ao longo do século XX, a partir do modelo industrial, a substituição do trabalho humano pelas máquinas tornou-o cada vez mais imaterial e acentuou o caráter cognitivo das tarefas, mesmo na indústria, assim como a importância dos serviços na atividade econômica. O futuro destas economias de- pende, aliás, da sua capacidade de transformar o progresso dos conhecimentos em inovações geradoras de novas empresas e de novos empregos. Aprender a fazer não pode, pois, continuar a ter o significado simples de preparar alguém para uma tarefa material bem determinada, para fazê-lo participar no fabrico de alguma coisa. Como consequência, as aprendizagens devem evoluir e não podem mais ser consideradas como simples transmissão de práticas mais ou menos rotineiras, embora estas continuem a ter um valor formativo que não é de desprezar.

Da noção de qualificação à noção de competência
Na indústria especialmente para os operadores e os técnicos, o domínio do cognitivo e do informativo nos sistemas de produção, torna um pouco obsoleta a noção de qualificação profissional e leva a que se dê muita importância à competência pessoal, O progresso técnico modifica, inevitavelmente, as qualificações exigi- das pelos novos processos de produção. As tarefas puramente 

físicas são substituídas por tarefas de produção mais intelectuais, mais mentais, como o comando de máquinas, a sua manutenção e vigilância, ou por tarefas de concepção, de estudo, de organização à medida que as máquinas se tornam, também, mais “inteligentes" e que o trabalho se "desmaterializa”.
Este aumento de exigências em matéria de qualificação, em todos os níveis, tem várias origens. No que diz respeito ao pessoal de execução a justa posição de trabalhos prescritos e parcelados deu lugar à organização em "coletivos de trabalho" ou "grupos de projeto", a exemplo do que se faz nas empresas japonesas: uma espécie de taylorismo ao contrário. Por outro lado, à indiferenciação entre trabalhadores sucede a personalização das tarefas. Os em- pregadores substituem, cada vez mais, a exigência de uma qualificação ainda muito ligada, a seu ver, à ideia de competência material, pela exigência de uma competência que se apresenta como uma espécie de coquetel individual, combinando a qualificação, em sentido estrito, adquirida pela formação técnica e profissional, o comportamento social, a aptidão para o trabalho em equipe, a capacidade de iniciativa, o gosto pelo risco.

Se juntarmos a estas novas exigências a busca de um com- promisso pessoal do trabalhador, considerado como agente de mudança, torna-se evidente que as qualidades muito subjetivas, inatas ou adquiridas, muitas vezes denominadas "saber-ser” pelos dirigentes empresariais, se juntam ao saber e ao saber-fazer para compor a competência exigida o que mostra bem a ligação que a educação deve manter, como aliás sublinhou a Comissão, entre os diversos aspectos da aprendizagem. Qualidades como a capa- cidade de comunicar, de trabalhar com os outros, de gerir e de resolver conflitos, tornam-se cada vez mais importantes. E esta tendência torna-se ainda mais forte, devido ao desenvolvimento do setor de serviços.

A “desmaterialização" do trabalho e a importância dos serviços entre as atividades assalariadas "}

As consequências sobre a aprendizagem da “desmaterialização' das economias avançadas são particularmente impressionantes se se observar a evolução quantitativa e qualitativa dos serviços. Este setor, muito diversificado, define-se sobretudo pela negativa, não são nem industriais nem agrícolas e que, apesar da sua diversidade, têm em comum o fato de não produzirem um bem material.

Muitos serviços definem-se, sobretudo, em função da relação interpessoal a que dão origem. Podem encontrar-se exemplos disso tanto no setor mercantil que prolifera, alimentando-se da complexidade crescente das economias (especialidades muito variadas, serviços de acompanhamento e de aconselhamento tecnológico, serviços financeiros, contabilísticos ou de gestão), como no setor não comercial mais tradicional (serviços sociais, ensino, saúde etc.). Em ambos os casos, as atividades de informação e comunicação são primordiais; dá-se prioridade à coleta e tratamento personalizado de informações específicas para determinado projeto. Neste tipo de serviços, a qualidade da relação entre prestador e usuário depende, também muito, deste último. Compreende-se, pois, que o trabalho em questão já não possa ser feito da mesma maneira que quando se trata de trabalhar a terra ou de fabricar um tecido. A relação com a matéria e a técnica deve ser completada com a aptidão para as relações interpessoais. O desenvolvimento dos serviços exige, pois, cultivar qualidades humanas que as formações tradicionais não transmitem, necessariamente e que correspondem à capacidade de estabelecer relações estáveis e eficazes entre as pessoas.

Finalmente, é provável que nas organizações ultratecnicistas do futuro os déficits relacionais possam criar graves disfunções exigindo qualificações de novo tipo, com base mais comportamental do que intelectual. O que pode ser uma oportunidade para os não diplomados, ou com deficiente preparação em nível superior. A intuição, o jeito, a capacidade de julgar, a capacidade de manter unida uma equipe não são de fato qualidades, necessariamente, reservadas a pessoas com altos estudos. Como e onde ensinar estas qualidades mais ou menos inatas? Não se podem deduzir simplesmente os conteúdos de formação, das capacidades ou aptidões requeridas. O mesmo problema põe-se, também, quanto à formação profissional, nos países em desenvolvimento.

O trabalho na economia informal
Nas economias em desenvolvimento, onde a atividade assalariada não é dominante, a natureza do trabalho é muito diferente. Em muitos países da África subsaariana e em alguns países da América Latina e da Ásia, efetivamente, só uma pequena parte da população tem emprego e recebe salário, pois a grande maioria participa na economia tradicional de subsistência. Não existe, rigorosamente falando, referencial de emprego; as competências são, muitas vezes, de tipo tradicional. Por outro lado, a aprendizagem não se destina, apenas, a um só trabalho mas tem como objetivo mais amplo preparar para uma participação formal ou informal no desenvolvimento. Trata-se, frequentemente, mais de uma qualificação social do que de uma qualificação profissional.

Noutros países em desenvolvimento existe, ao lado da agricultura e de um reduzido setor formal, um setor de economia ao mesmo tempo moderno e informal, por vezes bastante dinâmico, à base de artesanato, de comércio e de finanças que revela a existência de uma capacidade empreendedora bem adaptada às condições locais.

Em ambos os casos, após numerosas pesquisas levadas a cabo em países em desenvolvimento, apercebemo-nos que encaram o futuro como estando estreitamente ligado à aquisição da cultura científica que lhes dará acesso à tecnologia moderna, sem negligenciar com isso as capacidades específicas de inovação e criação ligadas ao contexto local.

Existe uma questão comum aos países desenvolvidos e em desenvolvimento: como aprender a comportar-se, eficazmente, numa situação de incerteza, como participar na criação do futuro?

Aprender a viver juntos, aprender a viver com os outros
Sem dúvida, esta aprendizagem representa, hoje em dia, um dos maiores desafios da educação. O mundo atual é, muitas vezes, um mundo de violência que se opõe à esperança posta por alguns no progresso da humanidade. A história humana sempre foi conflituosa, mas há elementos novos que acentuam o perigo e, especialmente, o extraordinário potencial de autodestruição criado pela humanidade no decorrer do século XX. A opinião pública, através dos meios de comunicação social, torna-se observadora impotente e até refém dos que criam ou mantêm os conflitos. Até agora, a educação não pôde fazer grande coisa para modificar esta situação real. Poderemos conceber uma educação capaz de evitar os conflitos, ou de os resolver de maneira pacífica, desenvolvendo o conheci- mento dos outros, das suas culturas, da sua espiritualidade?

É de louvar a ideia de ensinar a não-violência na escola, mesmo que apenas constitua um instrumento, entre outros, para lutar contra os preconceitos geradores de conflitos. A tarefa é árdua porque, muito naturalmente, os seres humanos têm tendência a supervalorizar as suas qualidades e as do grupo a que pertencem, e a alimentar preconceitos desfavoráveis em relação aos outros. Por outro lado, o clima geral de concorrência que caracteriza, atualmente, a atividade econômica no interior de cada país, e sobretudo em nível internacional, tem tendência de dar prioridade ao espírito de competição e ao sucesso individual. De fato, esta competição resulta, atualmente, numa guerra econômica implacável e numa tensão entre os mais favorecidos e os pobres, que divide as nações do mundo e exacerba as rivalidades históricas. É de lamentar que a educação contribua, por vezes, para alimentar este clima, devido a uma má interpretação da ideia de emulação.

Que fazer para melhorar a situação? A experiência prova que, para reduzir o risco, não basta pôr em contato e em comunicação membros de grupos diferentes (através de escolas comuns a várias etnias ou religiões, por exemplo). Se, no seu espaço comum, estes diferentes grupos já entram em competição ou se o seu estatuto é desigual, um contato deste gênero pode, pelo contrário, agravar ainda mais as tensões latentes e degenerar em conflitos. Pelo contrário, se este contato se fizer num contexto igualitário, e se existirem objetivos e projetos comuns, os preconceitos e a hostilidade latente podem desaparecer e dar lugar a uma cooperação mais serena e até à amizade.

Parece, pois, que a educação deve utilizar duas vias complementares. Num primeiro nível, a descoberta progressiva do outro. Num segundo nível, e ao longo de toda a vida, a participação em projetos comuns, que parece ser um método eficaz para evitar ou resolver conflitos latentes.

A descoberta do outro
A educação tem por missão, por um lado, transmitir conhecimentos sobre a diversidade da espécie humana e, por outro, levar as pessoas a tomar consciência das semelhanças e da interdependência entre todos os seres humanos do planeta. Desde tenra idade a escola deve, pois, aproveitar todas as ocasiões para esta dupla aprendizagem. Algumas disciplinas estão mais adaptadas a este fim, em particular a geografia humana a partir do ensino básico e as línguas e literaturas estrangeiras mais tarde.

Passando à descoberta do outro, necessariamente, pela descoberta de si mesmo, e por dar à criança e ao adolescente uma visão ajustada do mundo, a educação, seja ela dada pela família, pela comunidade ou pela escola, deve antes de mais ajudá-los a descobrir-se a si mesmos. Só então poderão, verdadeiramente, pôr-se no lugar dos outros e compreender as suas reações. Desenvolver esta atitude de empatia, na escola, é muito útil para os comportamentos sociais ao longo de toda a vida. Ensinando, por exemplo, aos jovens a adotar a perspectiva de outros grupos étnicos ou religiosos podem-se evitar incompreensões geradoras de ódio e violência entre os adultos. Assim, o ensino da história das religiões ou dos costumes pode servir de referência útil para futuros comportamentos (3).

Por fim, os métodos de ensino não devem ir contra este reconhecimento do outro. Os professores que, por dogmatismo, matam a curiosidade ou o espírito crítico dos seus alunos, em vez de os desenvolver, podem ser mais prejudiciais do que úteis. Esquecendo que funcionam como modelos, com esta sua atitude arriscam-se a enfraquecer por toda a vida nos alunos a capacidade de abertura à alteridade e de enfrentar as inevitáveis tensões entre pessoas, grupos e nações. O confronto através do diálogo e da troca de argumentos é um dos instrumentos indispensáveis à educação do século XXI.

Tender para objetivos comuns
Quando se trabalha em conjunto sobre projetos motivadores e fora do habitual, as diferenças e até os conflitos interindividuais tendem a reduzir-se, chegando a desaparecer em alguns casos. Uma nova forma de identificação nasce destes projetos que fazem com que se ultrapassem as rotinas individuais, que valorizam aquilo que é comum e não as diferenças. Graças à prática do desporto, por exemplo, quantas tensões entre classes sociais ou nacionalidades se transformaram, afinal, em solidariedade através da experiência e do prazer do esforço comum! E no setor laboral quantas realizações teriam chegado a bom termo se os conflitos habituais em organizações hierarquizadas tivessem sido transcendidos por um projeto comum!

A educação formal deve, pois, reservar tempo e ocasiões suficientes em seus programas para iniciar os jovens em projetos de cooperação, logo desde a infância, no campo das atividades desportivas e culturais, evidentemente, mas também estimulando a sua participação em atividades sociais: renovação de bairros, ajuda aos mais desfavorecidos, ações humanitárias, serviços de solidariedade entre gerações... As outras organizações educativas e associações devem, neste campo, continuar o trabalho iniciado pela escola. Por outro lado, na prática letiva diária, a participação de professores e alunos em projetos comuns pode dar origem à aprendizagem de métodos de resolução de conflitos e constituir uma referência para a vida futura dos alunos, enriquecendo a relação professor/aluno.

Aprender a ser
Desde a sua primeira reunião, a Comissão reafirmou, energicamente, um princípio fundamental: a educação deve contribuir para o desenvolvimento total da pessoa espírito e corpo, inteligência, sensibilidade, sentido estético, responsabilidade pessoal, espiritualidade. Todo o ser humano deve ser preparado, especial- mente graças à educação que recebe na juventude, para elaborar pensamentos autônomos e críticos e para formular os seus próprios juízos de valor, de modo a poder decidir, por si mesmo, como agir nas diferentes circunstâncias da vida.

O relatório Aprender a ser (1972) exprimia, no preâmbulo, o temor da desumanização do mundo relacionada com a evolução técnica (4). A evolução das sociedades desde então e, sobretudo, o  enorme desenvolvimento do poder mediático veio acentuar este temor e tornar mais legítima ainda a injunção que lhe serve de fundamento. É possível que no século XXI estes fenômenos adquiram ainda mais amplitude. Mais do que preparar as crianças para uma dada sociedade, o problema será, então, fornecer-lhes constante- mente forças e referências intelectuais que lhes permitam compreender o mundo que as rodeia e comportar-se nele como atores responsáveis e justos. Mais do que nunca a educação parece ter, como papel essencial, conferir a todos os seres humanos a liberdade de pensamento, discernimento, sentimentos e imaginação de que necessitam para desenvolver os seus talentos e permanecerem, tanto quanto possível, donos do seu próprio destino.

Este imperativo não é apenas de natureza individualista: a experiência recente mostra que o que poderia aparecer, somente, como uma forma de defesa do indivíduo perante um sistema alienante ou tido como hostil, é também, por vezes, a melhor -oportunidade de progresso para as sociedades. A diversidade das personalidades, a autonomia e o espírito de iniciativa, até mesmo o gosto pela provocação, são os suportes da criatividade e da inovação. Para reduzir a violência ou lutar contra os diferentes flagelos que afetam a sociedade os métodos inéditos retirados de experiências no terreno já deram prova da sua eficácia.

Num mundo em mudança, de que um dos principais motores parece ser a inovação tanto social como econômica, deve ser dada importância especial à imaginação e à criatividade; claras manifestações da liberdade humana elas podem vir a ser ameaçadas por uma certa estandardização dos comportamentos individuais. O século XXI necessita desta diversidade de talentos e de personalidades, mais ainda de pessoas excepcionais, igualmente essenciais em qualquer civilização. Convém, pois, oferecer às crianças e aos jovens todas as ocasiões possíveis de descoberta e de experimentação ---- estética, artística, desportiva, científica, cultural e social —, que venham completar a apresentação atraente daquilo que, nestes domínios, foram capazes de criar as gerações que os precederam ou suas contemporâneas. Na escola, a arte e a poesia deveriam ocupar um lugar mais importante do que aquele que lhes é concedido, em muitos países, por um ensino tornado mais utilitarista do que cultural. A preocupação em desenvolver a imaginação e a criatividade deveria, também, revalorizar a cultura oral e os conhecimentos retirados da experiência da criança ou do adulto.

Assim a Comissão adere plenamente ao postulado do relatório Aprender a ser: “O desenvolvimento tem por objeto a realização completa do homem, em toda a sua riqueza e na complexidade das suas expressões e dos seus compromissos: indivíduo, membro de uma família e de uma coletividade, cidadão e produtor, inventor de técnicas e criador de sonhos" (5). Este desenvolvimento do ser humano, que se desenrola desde o nascimento até à morte, é um processo dialético que começa pelo conhecimento de si mesmo para se abrir, em seguida, à relação com o outro. Neste sentido, a educação é antes de mais nada uma viagem interior, cujas etapas correspondem às da maturação contínua da personalidade. Na hipótese de uma experiência profissional de sucesso, a educação como meio para uma tal realização é, ao mesmo tempo, um processo individualizado e uma construção social interativa.

É escusado dizer que os quatro pilares da educação, acabados de descrever, não se apoiam, exclusivamente, numa fase da vida ou num único lugar. Como se verá no capítulo seguinte, os tempos e as áreas da educação devem ser repensados, completar-se e interpenetrar-se de maneira a que cada pessoa, ao longo de toda a sua vida, possa tirar o melhor partido de um ambiente educativo em constante ampliação.

Pistas e recomendações
  •  A educação ao longo de toda a vida baseia-se em quatro pilares: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver juntos, aprender a ser.
  • Aprender a conhecer, combinando uma cultura geral, sufi- cientemente vasta, com a possibilidade de trabalhar em profundidade um pequeno número de matérias. O que também significa: aprender a aprender, para beneficiar-se das oportunidades oferecidas pela educação ao longo de toda a vida.
  • Aprender a fazer, a fim de adquirir, não somente uma qualificação profissional mas, de uma maneira mais ampla, competências que tornem a pessoa apta a enfrentar numerosas situações e a trabalhar em equipe. Mas também aprender a fazer, no âmbito das diversas experiências sociais ou de trabalho que se oferecem aos jovens e adolescentes, quer espontaneamente, fruto do contexto local ou nacional, quer formalmente, graças ao desenvolvimento do ensino alternado com o trabalho.
  • Aprender a viver juntos desenvolvendo a compreensão do outro e a percepção das interdependências comuns e preparar-se para gerir conflitos realizar projetos no respeito pelos valores do pluralismo, da compreensão mútua e da paz.
  • Aprender a ser, para melhor desenvolver a sua personalidade e estar à altura de agir com cada vez maior capacidade de autonomia, de discernimento e de responsabilidade pessoal. Para isso, não negligenciar na educação nenhuma das potencialidades de cada indivíduo: memória, raciocínio, sentido estético, capacidades físicas, aptidão para comunicar-se.
  • Numa altura em que os sistemas educativos formais tendem a privilegiar o acesso ao conhecimento, em detrimento de outras formas de aprendizagem, importa conceber a educação como um todo. Esta perspectiva deve, no futuro, inspirar e orientar as reformas educativas, tanto em nível da elaboração de programas como da definição de novas políticas pedagógicas.
(1) Relatório da terceira sessão da Comissão, Paris, 12-15 de janeiro de 1994.
(2) Conforme Laurent Schwartz: “L'enseignement scientifique” in Instituto de França. Réflexions sur l'enseignement, Paris, Flammarion, 1993.
(3). Carnegie Corporation of New York. Education for Conflict Resolution (Retirado de Annual Report 1994 por David A. Hamburg, presidente da Carnegie Corporation of New York).
(4). Risco de alienação da personalidade patente nas formas obsessivas de propaganda e publicidade, no conformismo dos comportamentos que podem ser impostos do exterior, em detrimento das necessidades autênticas e da identidade intelectual e afetiva de cada um.
Risco de expulsão pelas máquinas, do mundo do trabalho, no qual a pessoa pelo menos tinha a impressão de se mover livremente e de decidir por si própria”. (FAURE, Edgar e outros, Apprendre à être. Relatório da Comissão Internacional sobre o Desenvolvimento da Educação UNESCO. Paris, Fayard, 1972.)
(5) 5. Op. cit., p. XVI.

Referência: 
DELORS, J. Educação: um tesouro a descobrir. 2ed. São Paulo: Cortez,  Brasília, DF: MEC/UNESCO, 2003. capítulo 4.

Os desafios que permanecem para o Ensino Médio na realidade brasileira

Por Geraldo Genetto Pereira
Professor, escritor, blogueiro, youtuber.
Formação: Licenciatura e Mestre em Letras pela UFMG.

A criação da educação pública brasileira aproxima-se dos duzentos anos. Desde a Primeira Lei Geral da Educação Pública, em 1827, houve avanços e inclusão. No entanto, ainda há muito o que fazer para se ter uma educação integral no país; uma educação inclusiva, plural que abranja a todas as classes sociais.

A educação pública brasileira engatinhou dezenas e dezenas de anos. Ela começou a existir oficialmente durante o reinado de D. Pedro II; evoluiu um pouco na República Velha; tomou nova face na Nova República. Todavia, somente no final do século 20 é que a educação brasileira “abriu os olhos” para todas as classes sociais. Foi com o advento da Lei 5692/71, “aperfeiçoada” pela Constituição Federal de 1988 e posteriormente pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – Lei 9394/96 – que as camadas menos favorecidas viram as portas da escola se abrirem para os seus filhos. No entanto, está abertura não é abrangente, uma vez que o Plano Nacional de Educação 2011-2020 não saiu das gavetas do Congresso Nacional. Nele há a sugestão da universalização do Ensino Médio até o ano 2016. Contudo, até o final de 2014 não há uma ação concreta para que o plano seja aprovado e o Ensino Médio seja universalizado para a população de 15 a 17 anos. Já a meta que trata de destinar 10% do PIB – Produto Interno Bruto - para a educação nacional é outra briga que a sociedade deverá lutar muito para que seja aprovada.

O Ensino Médio abriu as portas para os educandos. Todavia, não há um plano que vise a permanência dos alunos neste nível de Ensino. A evasão tem um percentual elevado. Conforme o portal do Senado Federal, com o alto índice de evasão e reprovação, ensino médio é um desafio para Ministério da Educação. De acordo com a Síntese de Indicadores Sociais, divulgada em 2010 pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o Brasil tem a maior taxa de abandono escolar no Ensino Médio entre os países do Mercosul. Segundo a pesquisa, 1 em cada 10 alunos entre 15 e 17 anos deixa de estudar nessa fase. Até o Ensino Fundamental, que recebe mais recurso que o Ensino Médio, tem evasão elevada; um para cada quatro alunos que inicia o ensino fundamental no Brasil abandona a escola antes de completar a última série. É o que indica o Relatório de Desenvolvimento 2012 do Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento). Com a taxa de 24,3%, o Brasil tem a terceira maior taxa de abandono escolar entre os 100 países com maior IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), só fica atrás da Bósnia Herzegovina (26,8%) e das ilhas de São Cristovam e Névis, no Caribe (26,5%). Na América Latina, só Guatemala (35,2%) e Nicarágua (51,6%) tem taxas de evasão superiores. Esses dados mostram que os quase duzentos anos da fundação da educação pública são insuficientes para que tenha uma educação de primeiro mundo. Mostra que há muita coisa para se fazer para melhorar o ensino e fixar os alunos na “sala de aula” dentro do seu tempo e junto com seus pares.

A evasão no Ensino Médio é o que mais assusta. Dados do INEP mostram que os índices de evasão e de repetência no primeiro ano são os maiores: 12,5% e 17,2%, respectivamente. O Brasil gasta por ano cerca de R$ 4,8 bilhões com alunos do Ensino Médio que repetem o ano ou abandonam a escola. Conforme o IPEA, nos anos 1990 houve o esforço para garantir direito de matrícula para todas as crianças, o número de crianças matriculadas aumentou consideravelmente em todo o país e o governo federal, à época, focou a educação básica como prioridade, especificamente nos anos finais do Ensino Fundamental. Entretanto, não houve um investimento plausível na educação infantil e muito menos no Ensino Médio.

Segundo a Revista Educação, quem estuda no Ensino Médio noturno enfrenta um arremedo de ensino: horas-aula são achatadas e a evasão é bem maior. Apenas 3,5% dos ingressantes na Fuvest em 2006 saíram do noturno. A revista é taxativa em dizer que os alunos do ensino médio noturno vivem diante de uma mentira: a garantia legal da mesma qualidade proporcionada pelo curso diurno é uma falácia. O encolhimento das horas-aula oferecidas à noite tornou-se tão evidente que a Secretaria da Educação do Acre, por exemplo resolveu assumir o problema e exibi-lo à sociedade.

Quanto a aprendizagem, pesquisa do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), mostra que em São Paulo, 43% dos estudantes concluem o ensino médio com uma bagagem em escrita e leitura que se esperava encontrar em alunos da oitava série. As pesquisas mostram que os alunos que deixam de estudar o fazem porque estão indo mal na escola. Ou seja, a educação secundária no Brasil necessita de muitos estímulos para que atinja a qualidade almejada para ela. Não basta apenas a qualificação dos professores; são necessários investimentos diversos como em laboratórios de pesquisas, salas multimídias – laboratórios de informática equipados e que funcionem, bibliotecas com acervos condizentes com o ensino secundários.

Referência bibliográfica
http://www.ipea.gov.br/
http://redeglobo.globo.com/globoeducacao/
http://revistaeducacao.uol.com.br
http://www12.senado.gov.br

Novidade!

8º ano do Ensino Fundamental Língua Portuguesa

  QUESTÃO   1                                                              VALOR: 0,60                       NOTA:_______ Observe os três ...