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Proposta de atividades - Dom Casmurro - redação

 PROPOSTA DE REDAÇÃO: gênero resumo

TEXTO I.

ABNT NBR 6028:2003 — Resumo, resenha e recensão

[...]
2. Termos e definições
Para os efeitos deste documento, aplicam-se os seguintes termos e definições.
[...]
2.3. Resenha
Análise do conteúdo de um documento, objeto, fato ou evento
2.4. Resumo
Apresentação concisa dos pontos relevantes de um documento
2.5. Resumo indicativo
Trabalho que indica os pontos principais do documento sem apresentar detalhamentos, como dados qualitativos e quantitativos, e que, de modo geral, não dispensa a consulta ao original
2.6. Resumos informativo
Trabalho que informa finalidades, metodologia, resultados e conclusões do documento, de tal forma que possa, inclusive, dispensar a consulta ao original.
[...]

Em: universidadeniltonlins.com.br. Acesso em 2 ago. 2025

PROPOSTA DE REDAÇÃO

A partir da leitura do livro literário da etapa escolar, redija um texto do gênero textual resumo informativo, em modalidade escrita formal da língua portuguesa, sobre UMA das seguintes PROPOSTAS.

Proposta 1

Resuma a narrativa contida nos capítulos 141 [ A SOLUÇÃO], 145 [ O REGRESSO], 146 [ NÃO HOUVE LEPRA].

Proposta 2

Resuma a narrativa contida nos capítulos 98 [ A MÃO DE SANCHA], capítulos 109 [ A D. SANCHA].

Proposta 3

Resuma a narrativa contida nos capítulos 85 [ O DEFUNTO], 87, [A SEGE] 88 [ UM PRETEXTO HONESTO], 90 [ A POLÊMICA].

Selecione, organize e relacione, de forma coerente e coesa. Seu texto deve conter no mínimo 20 linhas e no máximo 30 linhas. 

Os miseráveis - Vitor Hugo - atividades de redação

PROPOSTA DE REDAÇÃO: gênero resumo

TEXTO I.

ABNT NBR 6028:2003 — Resumo, resenha e recensão

[...]
2. Termos e definições
Para os efeitos deste documento, aplicam-se os seguintes termos e definições.
[...]
2.3. Resenha
Análise do conteúdo de um documento, objeto, fato ou evento
2.4. Resumo
Apresentação concisa dos pontos relevantes de um documento
2.5. Resumo indicativo
Trabalho que indica os pontos principais do documento sem apresentar detalhamentos, como dados qualitativos e quantitativos, e que, de modo geral, não dispensa a consulta ao original
2.6. Resumos informativo
Trabalho que informa finalidades, metodologia, resultados e conclusões do documento, de tal forma que possa, inclusive, dispensar a consulta ao original.
[...]

Em: universidadeniltonlins.com.br. Acesso em 2 ago. 2025

PROPOSTA DE REDAÇÃO

A partir da leitura do livro literário da etapa escolar, redija um texto do gênero textual resumo informativo, em modalidade escrita formal da língua portuguesa, sobre UMA das seguintes PROPOSTAS.

Proposta 1

Resuma o enredo especificamente da personagem Gavroche Thénardier – Sua introdução na narrativa, ações dele no contexto da narração e o desfecho dele.

Proposta 2

Resuma o enredo especificamente da personagem Gillenormand – Sua introdução na narrativa, ações dele no contexto da narração e o desfecho dele.

Proposta 3

Resuma o enredo especificamente da personagem Baptistine Myriel – Sua introdução na narrativa, ações dele no contexto da narração e o desfecho para ela.

Proposta 4

Resuma o enredo especificamente da personagem Monsieur Madeleine – Sua introdução na narrativa, ações dele no contexto da narração e o desfecho dele.

Selecione, organize e relacione, de forma coerente e coesa. Seu texto deve conter no mínimo 20 linhas e no máximo 30 linhas. 

O anjo linguarudo - resumo

O livro é narrado pela personagem Felipe, um menino órfão, que fala sobre sua vida e seus “altos e baixos”.

Ele começa falando de sua vida no interior do Paraná: morava com seus pais( Paulo e Isa) numa casa simples e alugada, onde mantinham uma quitanda na qual trabalhavam. Sua mãe estava grávida. Seus avós maternos moravam em outro bairro, numa casa pequena, onde viviam também seus tios e primos.

Houve uma tempestade na cidade e seus pais perderam tudo na enchente. Não havia lugar para eles na casa dos avós, então ficaram abrigados na quadra de uma escola. Seu pai ficou sem emprego e seu irmão (Gabriel) nasceu. Não tinham dinheiro. Seus pais conseguiram emprego em São Paulo: sua mãe como empregada e seu pai como motorista e jardineiro na casa de um milionário que não aceitava crianças, mas acabou aceitando o bebê. Felipe ficou na casa dos avós. A casa era pequena para tantos e o dinheiro era pouco. Felipe era considerado um “estorvo”.

Um dia, seu pai, sua mãe e seu irmão vieram com o carro do patrão pegar umas mudas de pinheiro e tinham uma proposta de emprego para sua avó, que aceitou. Na volta para São Paulo sofreram um acidente, no qual todos morreram. Felipe continuou com seu avô, tios e primos, mas a situação financeira da família ficou péssima. A irmã de seu avô (Tia Noeli), que trabalhava em São Paulo, conversou com o ex-patrão ( Sr. Samuel) de seus pais e contou a situação de Felipe. Sr. Samuel se prontificou a criá-lo. Inicialmente Felipe não queria, pois preferia ficar com a família, e além disso, sabia que ele não gostava de crianças, mas depois resolveu experimentar. Levou consigo o álbum de casamento de seus pais.Ao chegar no apartamento, levado por Tia Noeli, conheceu o Sr. Samuel ( tinha sido um pianista famoso), Ofélia ( uma cachorrinha) e Joelma ( a empregada).Felipe procurava se comportar bem e não incomodar “Tio Samuel”.

Joelma vivia implicando com ele, mas ele não reclamava porque tinha medo de ser devolvido. Felipe tinha um quarto com televisão, videogame, armário e banheiro, foi estudar numa boa escola onde fez amigos: Raquel, Ricardo, André e Geraldo ( tinha dificuldades de falar e ouvir, não tinha amigos). Todos pensavam que Felipe era órfão mas vivia com o tio. Raquel implicava com Geraldo dizendo que ele era adotado. Um dia, ele levou a rosa do canteiro da Raquel para a professora e ela ficou furiosa, resolveu se vingar colocando um bombom com pimenta na lancheira dele, juntamente com André. A mãe do Geraldo ficou furiosa e cobrou providências da escola, que questionou André, Ricardo e Felipe, este, com medo de decepcionar o “Tio”, contou tudo o que aconteceu.

André e Raquel foram suspensos e passaram a acusá-lo de traidor e dedo-duro.Felipe ficou muito triste e contou tudo para seu “Tio”, que o repreendeu dizendo que para ele, o pior defeito era ser “dedo-duro” e o colocou de castigo. Felipe escutou comentários de seu “tio” à uma amiga (Lavínia) sobre como estava decepcionado com ele e passou a tratá-lo com “frieza”.Felipe telefonou para Tia Noeli e pediu que viesse buscá-lo. Contou tudo o que aconteceu à ela, que o apoiou. Tia Noeli foi conversar com o Sr. Samuel, que acusou Felipe de ter contado tudo à ele por interesse. Tia Noeli ficou revoltada com sua atitude e da empregada em relação ao menino e o levou para o seu emprego. Sr. Samuel foi até o emprego dela, falou que ele havia esquecido o álbum de fotos e pediu para que Felipe voltasse a ficar com ele.

Felipe ficou feliz em saber que era querido. Combinaram de aumentar o diálogo entre eles e que deixariam o coração falar como deveriam agir. Deveriam ser sinceros. Felipe passou a assumir sua condição de órfão dos ex-caseiros de seu “Tio” e, além dos amigos que tinha, conquistou mais uma, a Kátia (ex-moradora de favela).Aos poucos sua amizade com Raquel foi se transformando em algo mais e sua relação com “Tio Samuel” cada vez mais amorosa. A vida tem seus “altos e baixos”.

Por Geraldo Genetto Pereira
Professor, escritor, blogueiro, youtuber.
Formação: Licenciatura e Mestre em Letras pela UFMG.

Auto da barca do inferno de Gil Vicente - resumo

Os especialistas veem no poema o "Auto da barca"  uma crítica a imoralidade da época em que a obra foi produzida, mesmo que,  muitas vezes, o texto se aproxime de uma farsa.  A obra proporciona uma amostragem do que era a sociedade lisboeta das décadas iniciais do século XVI, embora alguns dos assuntos que cobre sejam pertinentes na atualidade.

O  "Auto da Barca do Inferno" é a primeira parte da chamada trilogia das Barcas (sendo que a segunda e a terceira são respectivamente o Auto da Barca do Purgatório e o Auto da Barca da Glória). O poema é uma complexa alegoria dramática de Gil Vicente, representada pela primeira vez em 1517.  Diz-se "Barca do Inferno", porque quase todos os candidatos às duas barcas em cena – a do Inferno, com o seu Diabo, e a da Glória, com o Anjo – seguem na primeira. De fato, contudo, ela é muito mais o auto do julgamento das almas.

Embora o Auto da Barca do Inferno não integre todos os componentes do processo dramático, Gil Vicente consegue tornar o Auto numa peça teatral, dar unidade de ação através de único espaço e de duas personagens fixas " diabo e anjo". A narrativa se inicia em um lugar imaginário, onde se encontram as duas barcas, a Barca do Inferno, e a Barca da Glória. Nelas, Diabo e o Anjo esperam os mortes em uma proa.  Além de ser uma alegoria, o texto faz referência a personalidades da época.

No julgamento, há as seguintes personagens:
  • Fidalgo, 
  • D. Anrique;
  • Onzeneiro: homem que vivia de emprestar dinheiro a juros muito elevados naquela época, um agiota);
  • Sapateiro: de nome Joanantão, que parece ser abastado, talvez dono de oficina;
  • Joane, 
  • Parvo:  tolo que vivia simples e inconscientemente;
  • Frade:  um cortesão, Frei Babriel, com a sua "dama" Florença;
  • Brísida Vaz: uma alcoviteira ( que ganhava dinheiro com a prostituição de garotas).
  • Judeu: chamado Semifará;
  • Corregedor: alto funcionário da Justiça;
  • Procurador, alto funcionário da Justiça;
  • Enforcado.
  • Quatro Cavaleiros: que representam os templários que morreram a combater pela fé.
Cada personagem debate com o Diabo e com o Anjo sobre em qual das barcas deve entrar. No final, só os Quatro Cavaleiros e o Parvo entram na Barca da Glória (embora este último permaneça toda a ação no cais, numa espécie de Purgatório, o que nos transmite a ideia de que era uma pessoa bastante simples e humilde, mas que havia pecado. Vale ressaltar também que o principal objetivo dele ficar no cais é para animar a cena e ajudar o Anjo a julgar as restantes personagens, funcionando como uma 2ª voz.); todos os outros rumam ao Inferno.

Grande Sertão: Veredas - resumo


“Sentimento que não espairo; pois eu mesmo nem acerto com o mote disso ― o que queria e o que não queria, estória sem final. O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. O que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre ainda no meio da tristeza! Só assim de repente, na horinha em que se quer, de propósito ― por coragem. Será? Era o que eu às vezes achava. Ao clarear do dia.”                     ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas, página 293.
O autor
O médico e diplomata João Guimarães Rosa foi também contista, novelista e romancista. Nascido em 27 de junho de 1908, em Cordisburgo, pequena cidade do interior de Minas Gerais, Guimarães Rosa foi autodidata nos estudos de línguas desde a infância. Aos 9 anos já possuía conhecimentos em francês, holandês e inglês, e sua paixão não parou por aí.

Análise da obra de Guimarães Rosa
Grande Sertão: Veredas um dos maiores romances da literatura brasileira, não apenas em razão de sua extensão, mas também pela inovação linguística, sendo o único romance de João Guimarães Rosa. A escrita do texto oscila de forma autônoma entre dialeto regional e criações arbitrárias, afastando-se da norma culta. A obra, uma das mais importantes da literatura brasileira, é elogiada pela linguagem e pela originalidade de estilo presentes no relato de Riobaldo, ex-jagunço que relembra suas lutas, seus medos e o amor reprimido por Diadorim.

O romance "Grande Sertão: Veredas" é considerado uma das mais significativas obras da literatura brasileira. Publicada em 1956, inicialmente chama atenção por sua dimensão – mais de 600 páginas – e pela ausência de capítulos. Guimarães Rosa fundiu nesse romance elementos do experimentalismo linguístico da primeira fase do modernismo e a temática regionalista da segunda fase do movimento, para criar uma obra única e inovadora.

A história acontece no estado de Minas Gerais e caminha pelos estados próximos, como Bahia e Goiás. Narrada em primeira pessoa pelo herói da obra, o ex-jagunço Riobaldo, que dialoga sobre sua vida com um interlocutor que aparece de forma indireta na obra. Riobaldo, agora na condição de fazendeiro, relembra suas lutas, seus medos e o amor reprimido por seu amigo Diadorim.

A narrativa Conta sobre uma figura muito importante que ele conheceu ainda na infância, Reinaldo, um menino por quem Riobaldo nutria grande admiração e afeto. Ainda na juventude, sua mãe veio a falecer e ele foi morar com o padrinho, que o direciona a estudar e, em pouco tempo, começa a dar aulas para um fazendeiro da região, chamado Zé Bebelo. Zé estava interessado em colocar fim nos jagunços e convida Riobaldo para seu bando. Após sua primeira disputa, Riobaldo decide desertar e mudar de grupo, quando então reencontra o amigo Reinaldo. A história segue entre batalhas, casos amorosos e desentendimentos, fortalecendo a amizade entre Riobaldo e Reinaldo, a ponto do amigo lhe confidenciar um segredo: seu nome verdadeiro é Diadorim. Neste ponto a narrativa já está mais direcionada, embora não se desenvolva de forma linear. O leitor começa de fato a acompanhar a trajetória, narrada com um misto de autorreflexão do jagunço, descrevendo os personagens, a geografia física do sertão, as lutas entre bandos, a morte do chefe dos jagunços, Joca Ramiro, e as dificuldades do amor por Diadorim, até sua mudança de vida.

Narrador
O foco narrativo de "Grande Sertão: Veredas" está em primeira pessoa. Riobaldo, na condição de rico fazendeiro, revive suas pelejas, seus medos, seus amores e suas dúvidas. A narrativa, longa e labiríntica, por causa das digressões do narrador, simula o próprio sertão físico, espaço onde se desenrola toda a história.  A obra, na verdade, apresenta o diálogo entre Riobaldo e um interlocutor, que não se manifesta diretamente. Portanto, só é possível identificá-lo e caracterizá-lo por meio dos próprios comentários feitos por Riobaldo.

Tempo
Nessa narrativa, pode haver dificuldade de compreensão sobre a passagem do tempo. O motivo são a estrutura do romance, que não se divide em capítulos, e a narrativa em primeira pessoa, que permite digressões do narrador, alternando assim o tempo da narrativa a seu bel-prazer. No entanto, podemos dividir a obra, segundo alguns fatos marcantes do enredo, para facilitar a leitura:

  • 1ª parte: introdução dos principais temas do romance: o povo; o sertão; o sistema jagunço; Deus e o Diabo; e Diadorim. Nesse primeiro momento, Riobaldo introduz também a figura do interlocutor, que, como foi dito, não aparece diretamente na obra.
  • 2ª parte: inicia-se in medias res, ou seja, no meio da narrativa. Durante a segunda guerra, Riobaldo e Diadorim, chefiados por Medeiro Vaz, tentam vingar a morte de Joça Ramiro.
  • 3ª parte: a narrativa retorna à juventude de Riobaldo, quando ele conheceu o “menino Reinaldo”, e, para o desespero de Riobaldo, que não sabe nadar, ambos atravessam o rio São Francisco numa pequena embarcação.
  • 4ª parte: conflito entre Riobaldo e Zé Bebelo, no qual esse último perde a chefia, e Riobaldo-Tatarana é rebatizado como “Urutu Branco”.
  • 5ª parte: epílogo. Riobaldo retoma o fio da narração do início, contando ao interlocutor seu casamento com Otacília e como herdou as fazendas do padrinho. Ele termina sua narrativa com a palavra “travessia”, que é seguida pelo símbolo do infinito.
Espaço
O espaço geral da obra é o sertão. Os nomes citados podem causar estranheza e confundir os leitores que desconhecem a região. É preciso entender, no entanto, que essa confusão criada pelos diversos nomes e regiões é proposital. Ela torna o enredo uma espécie de labirinto, como se fosse uma metáfora da vida. A travessia desse labirinto, por analogia, pode ser interpretada como a travessia da existência.

Podem ser listados alguns espaços da narrativa em que importantes ações do enredo se desenvolvem:
  • Chapadão do Urucúia: local da travessia do rio São Francisco, onde Riobaldo e Reinaldo/Diadorim se conhecem.
  • Fazenda dos Tucanos: espaço onde o bando liderado por Zé Bebelo fica preso, cercado pelo bando de Hermógenes, depois de cair em uma tocaia. Esse episódio da Fazenda dos Tucanos é marcante, por causa da sensação de claustrofobia descrita no texto. Preso na casa da fazenda por vários dias, o grupo liderado por Zé Bebelo é alvejado pelos inimigos.
  • Liso do Sussuarão: local da tentativa frustrada de travessia do bando de Medeiro Vaz (segunda parte) e conseqüente retirada.
  • Local da narração: fazenda de Riobaldo, localizada na beira do rio São Francisco, “a um dia e meio a cavalo”, no norte de Andrequicé.
  • Paredão: espaço da batalha final, onde Diadorim morre e termina a guerra.
  • Veredas Mortas: local do possível pacto de Riobaldo.
Por Geraldo Genetto Pereira
Professor, escritor, blogueiro, youtuber.
Formação: Licenciatura e Mestre em Letras pela UFMG.

Vidas Secas - resumo

Vidas Secas é um romance de Graciliano Ramos publicado em 1938. Seus principais temas são a pobreza e as dificuldades na vida dos retirantes no sertão nordestino, narrando a busca de Fabiano e da sua família por mais dignidade. Vidas Secas é um romance de Graciliano Ramos publicado em 1938. Seus principais temas são a pobreza e as dificuldades na vida dos retirantes no sertão nordestino, narrando a busca de Fabiano e da sua família por mais dignidade.

Romance publicado em 1938, retrata a vida miserável de uma família de retirantes sertanejos obrigada a se deslocar de tempos em tempos para áreas menos castigadas pela seca. A obra pertence à segunda fase modernista, conhecida como regionalista, e é qualificada como uma das mais bem-sucedidas criações da época.

Estilo
O estilo seco de Graciliano Ramos, que se expressa principalmente por meio do uso econômico dos adjetivos, parece transmitir a aridez do ambiente e seus efeitos sobre as pessoas que ali estão. No cenário, apresenta a saga da cachorra Baleia, da mãe Sinha Vitória, do pai Fabiano e de seus dois filhos, que, no decorrer da história, são chamados de “mais novo” e “mais velho”. Sem nome e sobrenome, eles carregam a “identidade” das famílias que ainda hoje vivem o descaso social e a exploração humana no País.

“Vidas Secas” é mais do que uma simples descrição da vida no sertão; é uma crítica social poderosa que destaca a injustiça e a desigualdade, fazendo um retrato implacável e comovente da condição humana sob circunstâncias extremas.

Estrutura

“Vidas Secas” está estruturado em 13 capítulos, cada um funcionando quase como um conto independente, mas interligados pela trajetória dos personagens principais. Porém, o primeiro, "Mudança", e o último, "Fuga", devem ser lidos nessa sequência, pois apresentam uma ligação que fecha um ciclo. "Mudança" narra as agruras da família sertaneja na caminhada impiedosa pela aridez da caatinga, enquanto que em "Fuga" os retirantes partem da fazenda para uma nova busca por condições mais favoráveis de vida. Os capítulos são organizados de forma não linear, o que permite uma maior exploração dos aspectos psicológicos dos personagens e das situações que enfrentam. Essa estrutura fragmentada reflete a própria desordem e incerteza da vida dos retirantes.

A narrativa é conduzida em terceira pessoa, com um narrador onisciente que oferece uma visão completa dos eventos e pensamentos dos personagens.

Lista de Personagens
Baleia: cadela que é tratada como membro da família. Pensa, sonha e age como se fosse gente.
Sinhá Vitória: mulher de Fabiano. Mãe de 2 filhos, é batalhadora e inconformada com a miséria em que vivem. É esperta e sabe fazer conta, sempre prevenindo o marido sobre trapaceiros.
Fabiano: vaqueiro rude e sem instrução, não tem a capacidade de se comunicar bem e lamenta viver como um bicho, sem ter frequentado a escola. Ora reconhece-se como um homem e sente orgulho de viver perante às adversidades do nordeste, ora se reconhece como um animal. Sempre a procura de emprego, bebe muito e perde dinheiro no jogo.
Filhos: o mais novo admira a figura do pai vaqueiro, integrado à terra em que vivem. Já o mais velho não tem interesse nessa vida sofrida do sertão e quer descobrir o sentido das palavras, recorrendo mais à mãe.
Patrão: fazendeiro desonesto que explorava seus empregados, contrata Fabiano para trabalhar.

Fabiano
É um homem rude, típico vaqueiro do sertão nordestino. Sem ter frequentado a escola, não é um homem com o dom das palavras, e chega a ver a si próprio como um animal às vezes. Empregado em uma fazenda, pensa na brutalidade com que seu patrão o trata. Fabiano admira o dom que algumas pessoas possuem com a palavra, mas assim como as palavras e as ideias o seduziam, também cansavam-no. Sem conseguir se comunicar direito com as pessoas, entra em apuros em um bar com um soldado, que o desafiaram para um jogo de apostas. Irritado por perder o jogo, o soldado provoca Fabiano o insultando de todas as formas. O pobre vaqueiro aguenta tudo calado, pois não conseguia se defender. Até que por fim acaba insultando a mãe do soldado e indo preso. Na cadeia pensa na família, em como acabou naquela situação e acaba perdendo a cabeça, gritando com todos e pensando na família como um peso a carregar.

Sinha Vitória 
É a esposa de Fabiano. Mulher cheia de fé e muito trabalhadora. Além de cuidar dos filhos e da casa, ajudava o marido em seu trabalho também. Esperta, sabia fazer contas e sempre avisava ao marido sobre os trapaceiros que tentavam tirar vantagem da falta de conhecimento de Fabiano. Sonhava com um futuro melhor para seus filhos e não se conformava com a miséria em que viviam. Seu sonho era ter uma cama de fita de couro para dormir.

Os dois meninos
O mais novo via na figura do pai um exemplo. Já o mais velho queria aprender sobre as palavras. Um dia ouviu a palavra "inferno" de alguém e ficou intrigado com seu significado. Perguntou a Sinhá Vitória o que significava, mas recebeu uma resposta vaga. Vai então perguntar a Fabiano, mas esse o ignora. Volta a questionar sua mãe, mas ela fica brava com a insistência e lhe dá um cascudo. Sem ter ninguém que o entenda e sacie sua dúvida, só consegue buscar consolo na cadela Baleia.

Um dia a chuva chega (o "inverno") e ficam todos em casa ouvindo as histórias de Fabiano. Histórias essas que ele nunca tinha vivido, feitos que ele nunca havia realizado. Em meio a suas histórias inventadas, Fabiano pensava se as coisas iriam melhorar dali então. Para o filho mais novo, as sombras projetadas pela fogueira no escuro deixava o pai com um ar grotesco. Já o mais velho ouvia as histórias de Fabiano com muita desconfiança.

A vida na cidade
O Natal chegou e a família inteira foi à festa da cidade. Fabiano ficou embriagado e se sentia muito valente, só pensando em se vingar do soldado que lhe colocou atrás das grades. Uma hora, cansado de seu próprio teatro, faz de suas roupas um travesseiro e dorme no chão. Sinha Vitória estava cansada de cuidar do marido embriagado e ter que olhar as crianças também. Em um dado momento, ela toma coragem para fazer o que mais estava com vontade: encontra um cantinho e se abaixa para urinar. Satisfeita, acende uma piteira de barro e fica a sonhar com a cama de fitas de couro e um futuro melhor.

Baleia
É a cachorra da família. Fabiano vê o estado em que ela se encontrava, com pelos caídos e feridas na boca, e achou que ela pudesse estar doente. O vaqueiro resolve, então, sacrificar a cadela. Sinhá Vitória recolhe os filhos, que protestavam contra o sacrifício do pobre animal, mas não havia outra escolha. O primeiro tiro acerta o traseiro de Baleia e a deixa com as patas inutilizadas. A cadela sentia o fim próximo e chega a querer morder Fabiano. Apesar da raiva que sentia de Fabiano, o via como um companheiro de muito tempo. Em meio ao nevoeiro e da visão de uma espécie de paraíso dos cachorros, onde ela poderia caçar preás à vontade, Baleia morre sentindo dor e arrepios.

O nomadismo
E assim a vida vai passando para essa família sofredora do sertão nordestino. Até que um dia, com o céu extremamente azul e nenhuma nuvem à vista, vendo os animais em estado de miséria, Fabiano decide que a hora de partir novamente havia chegado. Partiram de madrugada largando tudo como haviam encontrado. A cadela Baleia era uma imagem constante nos pensamentos confusos de Fabiano. Sinhá Vitória tentava puxar conversa com o marido durante a caminhada e os dois seguiam fazendo planos para o futuro e pensando se existiria um destino melhor para seus filhos.

Por Geraldo Genetto Pereira
Professor, escritor, blogueiro, youtuber.
Formação: Licenciatura e Mestre em Letras pela UFMG.

Madame Bovary - resumo

Existem livros que precisam ser lidos e relidos. Madame Bovary é uma dessas obras que você nunca vai esgotá-las por apenas uma lida. Resolvi reler esse livro. E foi tão avassalador como na primeira vez.

Madame Bovary foi escrito em 1857 e foi considerado um escândalo na época. Imaginem! Sem falar no adultério de Emma, um escândalo para a época, o livro critica muito a igreja e a burguesia. Flaubert foi a julgamento diversas vezes pelo romance e em uma de suas defesas, declarou “Emma Bovary c’est moi!” (Eu sou Emma Bovary!), falando assim da sua própria indignação com o clero, a sociedade e as coisas mundanas. Apesar das acusações, Flaubert nunca foi preso.

MO romance conta a história de Emma, uma moça criada no campo, mas com sonhos burgueses. Inspirada pelo que lê nos livros, Emma quer uma vida melhor, cheia de mimos e coisas que só os ricos podem comprar. Pensando que poderá alcançar o que tanto quer, Emma casa com Charles Bovary, um médico também do interior.

O romance começa apresentando Charles Bovary adolescente. Um garoto meigo, monótono e estudioso, que no seu percurso de vida acaba se tornando um médico. Não um grande médico, mas um médico no mínimo dedicado à profissão. Sua mãe lhe apresenta uma mulher chamada Madame Dubuc. Uma mulher de meia-idade e rica. O casal muda-se para uma pequena cidade chamada Tostes, onde Charles começa a praticar medicina.

A personagem Charles, se lido por Nelson Rodrigues provavelmente achará que nela um “corno manso”, um estúpido, ou um perdedor. Um insensível, pois não consegue captar os sentimentos de Emma.

Emma Bovary? Bem, na literatura há uma grande tradição de heroínas belas e virtuosas. Sabemos que Emma era linda, então presumimos que ela era boa. Mas não, ela não era. Ela se recusa a ser boa. E Flaubert nos desafia, ele zomba de seus protagonistas, ele não nos deixa admirar ninguém. Nos dias de hoje, com o politicamente correto dando as ordens nas redes sociais, Gustave Flaubert provavelmente seria considerado um misógino.

Charles ama Emma apaixonadamente, mas por ignorância, não dá valor as coisas que Emma dá, não vê a beleza como Emma vê e é, na visão própria, extremamente entediante. Tentando suprir essa falta que o sonho de uma vida melhor faz, Emma procura em outros homens o alicerce para os seus desejos.

Emma Bovary não era uma mulher valente e virtuosa que no final sai triunfante. Era uma mulher que foi educada em um convento e possuía uma vocação religiosa, mas foi perdendo o interesse pela Igreja quando começou a ler romances de uma biblioteca pública. Nesses romances, Emma Bovary aprendeu que ela poderia escapar do mundo real para a ficção. Como? Ela aprendeu sobre encontros à meia-noite, noivas roubadas, paixão e glamour. Ela aprendeu que o amor romântico era o equivalente a uma dose de adrenalina que valia a pena ser vivido. Esse era um sonho de adolescente, impossível de realizar, mas ninguém lhe disse isso. Afinal, sua mãe já estava morta. Esse sonho tornou-se uma espécie de um ideal. Muito parecido com o Cavaleiro da triste figura, Don Quixote, que desenvolveu o mesmo encantamento lendo romances de Cavalaria, até se transformar em algo que era impossível ser.

Gustave Flaubert escreveu Madame Bovary primorosamente e maravilhosamente bem. Já que o livro tem poucos diálogos, grande parte dos acontecimentos são totalmente narrados, mais isso não o torna um livro entediante. Flaubert não abusa das descrições (Não chega nem perto de um Eça de Queiroz) e a narrativa flui. Dá para imaginar tudo dentro da cabeça. Há livros que tem poucas descrições dos personagens e do cenário, daí fica difícil imaginar como o autor os imaginou quando os escreveu. Com Madame Bovary é possível imaginar cada expressão de Emma e cada atitude de Charles e todo o ambiente onde a história se desenrola.

No início do livro, logo depois que Emma casa com Charles, que é quando sabemos da sua urgência pela aventura e pelo que é diferente, requintado e belo, ficamos com pena de Emma. Acho que ela é o reflexo de muitas mulheres, inclusive modernas, que são presas ou pela família ou pelo marido ou pela sociedade e não podem vivenciar suas paixões. Acontece que, durante a leitura, à medida que Emma se torna mais difícil de ser agradada, apesar das tentativas constantes do marido e dos amantes, Emma se torna chata. Dá vontade de esganar Madame Bovary! E no final do livro, a gente quer mais é que o Senhor Bovary mande a Madame pastar! Ô, criatura difícil de agradar!

Flaubert não mostra nenhuma reação subjetiva em relação aos seus personagens. É isso que na história da literatura chamamos de realismo. Como já sabemos, algumas das características do realismo são os sentimentos, sobretudo o amor, subordinados aos interesses sociais e o herói problemático, cheio de fraquezas. Se levarmos em conta o título da obra acima, Emma Bovary seria a “heroína”. No entanto, a narrativa começa e termina com o estúpido Charles Bovary e, nela, desempenham um papel importante na trama, o estúpido dom-juanismo de Rodolphe, a estúpida paixão de Léon, a estupidez do padre farisaico Bournisien e todo esse pequeno ambiente de província, que não deixa saída para Emma nem para ninguém. Otto Maria Carpeaux, em seu ensaio sobre a obra, comenta com grande ênfase: “O verdadeiro personagem desse romance é a estupidez humana”.

Por Geraldo Genetto Pereira
Professor, escritor, blogueiro, youtuber.
Formação: Licenciatura e Mestre em Letras pela UFMG.

A reforma da natureza - resumo

CAPÍTULO 1

A Reforma da Natureza
Quando a guerra da Europa terminou, os ditadores, reis e presidentes cuidaram da discussão da paz. Reuniram-se num campo aberto, sob uma grande barraca de pano, porque já não havia cidades: todas haviam sido arrasadas pelos bombardeios aéreos. E puseram-se a discutir, mas por mais que discutissem não saía paz nenhuma. Parecia a continuação da guerra, com palavrões em vez de granadas e perdigotos em vez de balas de fuzil.

Foi então que o Rei Carol da Romênia se levantou e disse:
- Meus senhores, a paz não sai porque somos todos aqui representantes de países e cada um de nós puxa a brasa para a sua sardinha. Ora a brasa é uma só e as sardinhas são muitas.

Ainda que discutamos durante um século, não haverá acordo possível. O meio de arrumarmos a situação é convidarmos para esta conferência alguns representantes da humanidade. Só essas criaturas poderão propor uma paz que satisfazendo a toda a humanidade também satisfaça aos povos, porque a humanidade é um todo do qual os povos são as partes. Ou melhor: a humanidade é uma laranja da qual os povos são os gomos.

Essas palavras profundamente sábias muito impressionaram àqueles homens. Mas onde encontrar criaturas que representassem a humanidade e não viessem com as mesquinharias das que só representam povos, isto é, gomos da humanidade?

O Rei Carol, depois de cochichar com o General de Gaulle, prosseguiu no seu discurso.
- Só conheço - disse ele - duas criaturas em condições de representar a humanidade, porque são as mais humanas do mundo e também são grandes estadistas. A pequena república que elas governam sempre nadou na maior felicidade.

Mussolini, enciumado, levantou o queixo.
- Quem são essas maravilhas!
- Dona Benta e tia Nastácia - respondeu o Rei Coral - as duas respeitáveis matronas que governam o Sítio do Pica-pau Amarelo, lá na América do Sul. Proponho que a Conferência mande buscar as duas maravilhas para que nos ensinem o segredo de bem governar os povos.
- Muito bem! - aprovou o Duque de Win-dsor, que era o representante dos ingleses. 
- A Duquesa me leu a história desse maravilhoso pequeno país, um verdadeiro paraíso na terra, e também estou convencido de que unicamente por meio da sabedoria de Dona Benta e do bom-senso de tia Nastácia o mundo poderá ser consertado. No dia em que o nosso planeta ficar inteirinho como é o sítio, não só teremos paz eterna como a mais perfeita felicidade.

Os grandes ditadores e os outros chefes da Europa nada sabiam do sítio. Admiraram-se daquelas palavras e pediram informações. O Duque de Windsor começou a contar, desde o começo, as famosas brincadeiras de Narizinho, Pedrinho e Emília no Pica-pau Amarelo. O interesse foi tanto que pouco depois todos aqueles homens estavam sentados no chão, em redor do Duque, ouvindo as histórias e lembrando- se com saudades do bom tempo em que haviam sido crianças e, em vez de matar gente com canhões e bombas, brincavam na maior alegria de "esconde-esconde" e " chicote-queimado.”

Comoveram-se e aprovaram a proposta do Rei Carol.

Eis explicada a razão do convite a Dona Benta, tia Nastácia e o Visconde de Sabugosa para irem representar a Humanidade e o Bom-Senso na Conferência da Paz de 1945.

Com grande naturalidade Dona Benta aceitou o convite e deliberou seguir com todo o seu pessoalzinho - menos a Emília. Emília recusou-se a partir porque estava com a ideia que lhe veio pela primeira vez quando ouviu a fábula do Reformador da Natureza,. Fazia já meses que Dona Benta havia contado essa fábula assim:

O Reformador da Natureza Américo Pisca-Pisca tinha o hábito de botar defeito em todas as coisas.

O mundo para ele estava errado e a Natureza só fazia tolices.
- Tolices, Américo?
- Pois então?!... Aqui neste pomar você tem a prova disso. Lá está aquela jabuticabeira enorme sustendo frutas pequeninas e mais adiante vejo uma colossal abóbora presa ao caule duma planta rasteira.

Não era lógico que fosse justamente o contrário? Se as coisas tivessem de ser reorganizadas por mim, eu trocaria as bolas - punha as jabuticabas na aboboreira e as abóboras na jabuticabeira. Não acha que tenho razão?

E assim discorrendo Américo provou que tudo estava errado e só ele era capaz de dispor com inteligência o mundo. Acha?

- Mas o melhor - concluiu - é não pensar nisso e tirar uma soneca à sombra destas árvores, não. E Américo Pisca-Pisca, pisca-piscando que não acabava mais, estirou-se de papo para cima à sombra da jabuticabeira.

Dormiu. Dormiu e sonhou. Sonhou com o mundo novo, inteirinho reformado pelas suas mãos. Que beleza! De repente, porém, no melhor do sonho, plaf! uma jabuticaba cai do galho bem em cima do seu nariz.

Américo despertou de um pulo. Piscou, piscou. Meditou sobre o caso e afinal reconheceu que o mundo não estava tão mal feito como ele dizia. E lá se foi para casa, refletindo:
- Que espiga! ... Pois não é que se o mundo tivesse sido reformado por mim a primeira vítima teria sido eu mesmo? Eu, Américo Pisca- Pisca, morto pela abóbora por mim posta em lugar da jabuticaba? Hum! ... Deixemo-nos de reformas. Fique tudo como está que está tudo muito bom.

E Pisca-Pisca lá continuou a piscar pela vida em fora, mas desde então perdeu a cisma de corrigir a Natureza.

Ao ouvirem Dona Benta contar essa fábula todos concordaram com a moralidade, menos Emília.
- Sempre achei a Natureza errada - disse ela - e depois de ouvir a história do Américo Pisca-Pisca, acho-a mais errada ainda. Pois não é um erro fazer um sujeito pisca-piscar? Para que tanto "pisco"? Tudo que é demais está errado. E quanto mais eu "estudo a Natureza" mais vejo erros. Para que tanto beiço em tia Nastácia? Por que dois chifres na frente das vacas e nenhum atrás? Os inimigos atacam mais por trás do que pela frente. E é tudo assim. Erradíssimo. Eu, se fosse reformar o mundo, deixava tudo um en canto, e começava reformando essa fábula e esse Américo Pisca-Pisca.

A discussão foi longe naquele dia; todos se puseram contra a reforma, mas a teimosa criaturinha não cedeu. Berrou que tudo estava errado e que ela havia de reformar a Natureza.
- Quando, Marquesa? - perguntou ironicamente Narizinho. Da primeira vez em que me pilhar aqui sozinha.

CAPÍTULO 2

Aparece a Rã
Essa ocasião havia chegado. Ao saber que Dona Benta recebera convite dos chefes da Europa para ir arrumar o pobre continente, Emília deu um pulo de gosto e, já com a idéia da reforma da Natureza na cabeça, declarou que não ia.
- Não vai, como, Emília? - disse Dona Benta. - Acha que posso deixar você sozinha aqui?

Emília disfarçou a verdadeira razão de ficar. Declarou que não ia para evitar escândalos na Conferência da Paz.
- Sim - disse ela - se eu for não é para ficar dormindo no hotel, não! Também hei de querer tomar parte na Conferência - e tenho umas tais verdades a dizer aos tais ditadores que a senhora nem imagina. E fatalmente sai "fecha".  Vira escândalo. É isso que quero evitar.

Dona Benta ficou pensativa, e foi à cozinha consultar tia Nastácia. Encontrou-a areando o tacho para fazer goiabada.
- Nastácia - disse ela - Emília encrencou. Quer ficar.
Diz que se for à Conferência sai fecha com os ditadores e haverá um grande escândalo internacional.
- E estou com medo disso. Tenho horror a escândalos.
- E sai fecha mesmo, Sinhá. -Depois daquela história da Chave do Tamanho, Emília ficou prepotente demais. Não atura nada. Dá escândalo mesmo, Sinhá, e é até capaz de estragar o nosso trabalho por lá. Pedrinho me contou que aquilo nas Europas está pior que quarto de badulaque quando a gente procura uma coisa e não acha. Tudo de perna para o ar, disse ele. Tudo sem cabeça, espandongado. A nossa serviceira vai ser grande, Sinhá, e com a Emília atrapalhando, então, é que não fazemos coisa que preste. Minha opinião é que ela fique.
- Mas ficar sozinha aqui, Nastácia?
- Fica com o Conselheiro e o Quindim - que mais a senhora quer? Juízo eles têm para dar e vender - e ainda sobra. Eu converso com o Conselheiro e explico tudo. .

Dona Benta pensou, pensou e afinal se convenceu de que tia Nastácia tinha razão. Controlada pelo Conselheiro e defendida pelo Quindim, que mal havia em Emília ficar? E Emília ficou. Narizinho, porém, que era a que mais conhecia a Emília, não deu crédito àquele pretexto de não ir para não dar escândalo.
- Isso é história dela, vovó! Emília até gosta de escândalo. Quer ficar sozinha eu sei para que é  - para sapecar à vontade, fazer alguma coisa ainda mais maluca do que aquela da chave do tamanho. Eu, se fosse a senhora, não a deixava aqui sozinha.

Mas Dona Benta era a democracia em pessoa: jamais abusou da sua autoridade para oprimir alguém. Todos eram livres no sítio, e justamente por essa razão nadavam num verdadeiro mar de felicidade. Emília recusava-se a ir? Pois então que não fosse. Como forçá-la a ir? Com que direito? E que adiantaria ir a contragosto, emburrada? E Emília teve licença para ficar.  Isso foi na própria manhã da vinda do convite. Um mês depois chegava a comissão incumbida de levar Dona Benta.

Essa comissão veio no único navio ainda existente no mundo. Todos os outros estavam repousando no fundo dos mares, vítimas dos submarinos e torpedos aéreos. Dona Benta, arrumou as malas, vestiu o seu vestido de gorgorão amarelo do tempo de D. Pedro II, mandou que tia Nastácia pusesse a saia nova de pintinhas verdes e lá foram as duas para bordo do navio. Pedrinho e Narizinho acompanhavam a ilustre vovó na qualidade de netos; e o Visconde, com uma gorda pasta de ciência debaixo do braço, seguia na qualidade de Consultor Científico.

Emília, o Conselheiro e Quindim estiveram presentes ao bota-fora na porteira, e ouviram as últimas recomendações de tia Nastácia sobre as galinhas, os porquinhos de ceva e uma ninhada de pintos que já estavam bicando.
- Não se ponham a ajudar os pintinhos a sair da casca senão eles morrem - disse ela. - Pinto sabe muito bem se arrumar sozinho. E não esqueçam de molhar as mudinhas de couve lá na horta.

Ouvindo aquelas recomendações tão sensatas, os homens da comissão entreolharam-se, como quem diz: 
- "Com pessoas de tão belo espírito prático, e tão cuidadosas de tudo, a Conferência vai ser um verdadeiro triunfo para a humanidade (e não erraram.)?”

Assim que se pilhou sozinha, Emília correu à máquina de escrever e bateu uma carta para uma menina do Rio de Janeiro com a qual andava já de algum tempo se correspondendo e planejando "coisas.”

"Querida Rã: Estou só - só-só-ró-só-só! Todos foram para a Europa arrumar aqueles países mais amarrotados do que latas velhas e agora preciso que você venha passar uma temporada aqui.

Você é das minhas: das que não concordam. Podemos realizar aquele nosso plano de reforma da Natureza. O Américo Pisca-Pisca era um hôho alegre. Reformou a Natureza como o nariz dele, e foi pena que a abóbora do sonho não lhe esmagasse a cabeça de verdade.

Seria um bobo de menos no mundo. Nós faremos uma reforma muito melhor. Primeiro reformamos as coisas aqui do sítio. Se der certo, o mundo inteiro adotará as nossas reformas. Sua mãe não há de querer que você venha. Ê "adulta" e os tais adultos são uns Américos Pisca-Piscas. Mas você vem assim mesmo.

Cheire meia pitada desse pó que vai no saquinho de papel - só meia, se não em vez de parar aqui você vai parar não sei onde. Eles partiram esta manhã e eu já estou me sentindo muito "tênia..." (Depois que Emília soube que "solitária" era sinônimo de "tênia", passou a empregar a palavra "tênia" em vez de "solitária.”

"Não é gramatical" - dizia ela - "mas é mais curto.")

A Rã, assim chamada por causa da sua magreza de menina de onze anos, era emilíssima, das que não concordam mesmo. Assim que leu a carta, deu dez pinotes e tratou de dividir o pó do saquinho em duas partes "bissolutamente” iguais. Por influência da Emília ela andava usando a palavra "absolutamente" dita dessa maneira.  Antes de reformar a Natureza, Emília já havia feito várias reformas na língua.
- Que está fazendo aí, menina? - perguntou a mãe da Rã, ao vê-la dividindo o misterioso pó.
- Estou "bi" o que leva e trás para que me leve e traga - respondeu ela em linguagem da pitonisa de Delfos (na língua emiliana "bi" queria dizer "dividir em dois.")

A boa senhora está claro que não entendeu coisa nenhuma, mas como já estava acostumada às respostas enigmáticas da filha, deu um suspiro e foi cuidar de outra coisa. A Râzinha cheirou o pó, de acordo com as instruções da carta. Imediatamente seus olhos se fecharam e em seus ouvidos cantou o célebre fiunn! Instantes depois sentiu-se largada no chão. Abriu os olhos: um terreiro! Só podia ser o terreiro do sítio. Mas não viu ninguém. A casa, fechada. No ar, só dois sons; um ronco que devia ser do Quindim na soneca do costume e um barulho de mastigação com jeito de ser Rabicó. Ainda sentada e tonta, a menina gritou: 
- Emília! Emilinha! Emiloca! ...

CAPÍTULO 3

O passarinho-ninho
A resposta foi um "Aqui!" vindo do pomar. Correndo no rumo da voz, a menina encontrou Emília tão entretida com um passarinho que nem sequer a olhou. Estava afundando as costas dum tico-tico. Todos os passarinhos têm costas "convexas", isto é, arredondadas para cima. Emília estava fazendo um passarinho de costas "côncavas", isto é, com um afundamento redondo nas costas. A Rã ficou a olhar para aquilo sem entender coisa nenhuma, até que Emília explicou.
- Estou fazendo o passarinho-ninho. A boba da Natureza arruma as coisas às tontas, sem raciocinar. Os passarinhos, por exemplo. Ela os ensina a fazer ninhos nas árvores. Haverá maior perigo? Os ovos e os filhotes ficam sujeitos à chuva, às cobras, às formigas, às ventanias. O ano passado deu por aqui um pé- de-vento que derrubou o ninho deste tico-tico, ali da minha pitangueira - e lá se foram três ovos tão bonitinhos, todos sardentinhos. E mais uma vez me convenci da "tortura" das coisas. Comecei a reforma da Natureza por este passarinho.

A Rã não entendeu que reforma era aquela e perguntou:
- Para que esse afundamento aí nas costas do tico-tico?
- Pois é o ninho - respondeu Emília. - Faço o ninho dele aqui nas costas e pronto. Para onde ele for, lá vão também os ovos ou os filhotes - e não há perigo de cobra, nem de ventania, nem de chuva.
- De chuva há - disse a Rãzinha. - Nos ninhos em árvores a fêmea está sempre em cima dos ovos. Mas aí... 

Emília fez um muxôxo de superioridade.
- Já previ todas as hipóteses - disse ela. 
- Faço a caudinha dele bem móvel, de modo que possa virar para trás e cobrir os ovos quando for preciso, como se fosse um telhadinho.

A Rã deu-se por satisfeita e com a maior atenção acompanhou o preparo do primeiro passarinho ninho do mundo.
- Pronto! - exclamou Emília por fim. - Paliam só os ovos. Corra ali e me traga o tico-tico fêmea que está na gaiola.

A Rã foi e trouxe o passarinho. Emília pegou-o com muito jeito e espremeu-o de modo que saíssem três ovinhos sardentos, os quais depositou com muito cuidado no ninho de penas feito nas costas do tico- tico macho - e soltou os dois, pelo ar.

Emília estava radiante.

- Lá se foram! - exclamou. - Acabaram-se as inquietações, os medos de cobra, formiga ou vento. E também se acabou o desaforo de todo o trabalho de botar e chocar os ovos caber só à fêmea. Os homens sempre abusaram das mulheres. Dona Benta diz que nos tempos antigos, e mesmo hoje entre os selvagens, os marmanjos ficam no macio, pitando nas redes, ou só se ocupam dos divertimentos da caça e da guerra, enquanto as pobres mulheres fazem toda a trabalheira, e passam a vida lavando e cozinhando e varrendo e aturando os filhos. E se não andam muito direitinhas, levam pau no lombo. Os machos sempre abusaram das fêmeas, mas agora as coisas vão mudar. Este tico tico, por exemplo, tem que tomar conta dos ovos. A fêmea fica com o trabalho de botá-los, mas o macho tem que tomar conta deles.
- Mas assim os ovos não chocam - objetou a Rãzinha.
- Para que choquem é preciso que as fêmeas fiquem uma porção de dias sentadas sobre eles. As galinhas levam 21 dias no choco.
- Já "previ a hipótese" - disse Emília - e reformei esse ponto. No meu sistema de passarinho ninho quem choca não é a fêmea e sim o sol, como acontece com os ovos dos jacarés, tartarugas, lagartixas e cobras.
- E quando não houver sol? Às vezes passam-se dias sem o sol aparecer.
- Nesse caso os ovos que tenham paciência e esperem que o sol apareça. Para que pressa?

A Rã não teve mais nada a dizer. Estava certo. Só então é que Emília se lembrou de cumprimentá-la e saber como iam todos lá da casa. Também lhe examinou as mãos para ver se as unhas estavam de luto. E fê-la voltar-se de perfil e de costas, e dar três pulos. Era a primeira vez que as duas se encontravam pessoalmente.
- Estou gostando do seu físico - disse Emília no fim do exame. - Tive medo de que não correspondesse à idéia que fiz. Muitas vezes a gente imagina uma pessoa e sai o contrário. Gostei muito da sua última carta sobre a reforma das cidades e das gentes. Adoro você, Rã, porque você não concorda.
- Ah, não concordo mesmo! - exclamou a Rãzinha. - Vivo não concordando. Em nós, gente, por exemplo, quanta coisa errada! Por que dois olhos na frente e nenhum na nuca? Eu, se fosse reformar as criaturas, punha um olho na testa e outro na nuca. Desse modo eu dobrava a segurança das criaturas.
- Pois eu aumentava o número de olhos - disse Emília.
- Por que dois só? Assim como temos dez dedos podíamos ter dez olhos. Eu punha quatro na cabeça, a norte, sul, leste e oeste. Eu punha dois nos dedões dos pés, para evitar as to padas. Outro dia Pedrinho deu uma topada num tijolo que quase arrancou a unha. Com um olho em cada dedão não há perigo de topadas - nem de espinhos e estrepes. E eu também dava olhos a cada dedo minguinho. O minguinho é uma verdadeiro vagabundo nas mãos. Não faz nada. Fica o tempo todo assistindo ao trabalho dos outros. Ora, se o "mingo" tivesse um olhinho na ponta, podia prestar bons serviços. Às vezes a gente quer enxergar numa cova de dente ou ver se há cera no ouvido e não pode. Com o olho do "mingo", nada mais fácil.
- E esse olho do minguinho - ajuntou a Rã - podia ser como os microscópios, capaz de enxergar coisinhas invisíveis aos olhos comuns. Mas haveria um inconveniente, Emília. As mãos lidam com tudo, trabalham muito, e esses olhos do minguinho haviam de viver se enchendo de cisco ou se arranhando - e que dor!
- Nada mais fácil do que evitar isso - lembrou Emília.
- Basta que usem dedaizinhos. Ficam cobertos quando não tiverem o que fazer. Mas por enquanto não podemos reformar gente, porque não há gente aqui. Todos os humanos do sítio foram para a Europa.
- E Rabicó?
- Esse é desumano e quadrupedíssimo. Já pensei muito na reforma de Rabicó. Podemos transformá-lo em bípede e ...
- E acabar com aquela mania de comer tudo quanto encontra - continuou a Rã. - Eu faria assim: no focinho punha uma espécie de ratoeira, sempre armada; quando ele avançasse num doce ou em qualquer coisa séria, como aquela coroa do casamento de Narizinho, a ratoeira desarmava e segurava-lhe o focinho. E também dava-lhe pernas de tartaruga, para que não pudesse fugir quando Pedrinho o perseguisse com o bodoque.

Emília olhou para a Rã com ar desconfiado. Aquelas ideias pareceram-lhe absurdas. A ratoeira impediria Rabicó de comer não só cocadas e coroinhas como tudo mais, e ele morreria de fome.
- "Bissurdo", Rã! - disse ela. - A sua ratoeira acabava matando Rabicó e Dona Benta ficava danada.
- Você não me entendeu, Emília. A ratoeira só funcionaria quando ele quisesse comer coroinhãs. Para abóbora, milho, mandioca e o resto, não.
- Mas como a ratoeira podia saber quando era coroinha?
- Pelo cheiro. Eu punha um bom nariz na ratoeira.

Emília olhou para a Rã com o rabo dos olhos. Aquela menina estava com jeito de ser maluca ... Apesar disso encarregou-a de reformar Rabicó. A Rã mudou de assunto.
- Na carta que você me escreveu, Emília, encontrei a palavra "bissolutamente" em vez de "absolutamente" e agora você disse "bissurdo" em vez de "absurdo." Está reformando as palavras também?
- Ainda não, mas já pensei nisso. Por enquanto me limito a cortar uma ou outra letra com a qual me implico. O "a” de certas palavras me obriga a abrir muito a boca - e meu queixo pode cair, como o da filha de Nhá Veva. Experimente dizer absurdo sem abrir a boca.

A Rã experimentou e não conseguiu, mas "bissurdo" ela disse quase de boca fechada.
- Pois aí está! - tornou Emília. - Tudo errado, até o "a" de certas palavras. O mundo é uma grande trapalhada. Para que, por exemplo, caudinha em Rabicó? Na vaca Mocha a cauda tem razão de ser - serve para espantar as moscas. É um espanador. Mas em Rabicó? Para que serve aquele caracolzinho pelado?
- Para enfeite do fim - lembrou a Rã.
- Que fim?
- O fim de Rabicó. Todos os fins têm caudinhas. É o remate. Mamãe diz que é feio comer e deixar o prato limpo, ou beber um cálice de licor sem deixar um bocadinho no fundo. São caudinhas. São os enfeites da boa educação.

Emília estava cada vez mais desconfiada da Rãzinha. Parecia a Alice do País das Maravilhas. Só vinha com disparates. E disse:
- Enfeites são inutilidades. Não quero saber de enfeites nas minhas reformas. Tudo há de ter uma razão científica. Aquela ideia da carta sobre a reforma do Quindim me pareceu maluca. Acho que você quer brincar com a Natureza, menina. Eu quero corrigir a Natureza, quero melhorá-la, entende? Não se trata de nenhuma brincadeira. Negócio sério. Aí está a diferença entre nós. Na última carta você falou em substituir o couro do Quindim por um veludo. Isso é asneira.
- Mas que necessidade tem Quindim dum couro duríssimo, aqui no Pica-pau Amarelo, onde não há espinhos africanos?
- Concordo. Poderá ter um couro mais fino, assim como a camurça; mas de veludo, Rã, é demais. Às vezes penso que você está sabotando a minha idéia de reforma da Natureza ...

CAPÍTULO 4

Reforma da Mocha
Por muito tempo ficaram as duas conversando sobre reformas e mais reformas e, como estivessem debaixo da jabuticabeira, iam falando e comendo as deliciosas frutas. Em certo momento Emília disse:
- Esta jabuticabeira, por exemplo. Não acha que é uma vergonha uma árvore deste tamanho dar frutinhas tão pequenas? E no entanto temos lá na horta um pé de abóbora que dá abóboras enormes e é um pé que nem é pé de coisa nenhuma - não passa dum talinho mole que se esborracha quando a gente pisa em cima. Vou mudar. Vou botar as jabuticabas no pé de abóbora e as abóboras na jabuticabeira.
- Mas isso foi o que o Américo Pisca-Pisca fez - alegou a Rã - e o sonho lhe abriu os olhos.
- É que o bobo foi dormir debaixo da jabuticabeira - e sabe para quê? Para que a fábula ficasse bem arranjadinha. O fabulista era um grande medroso; queria fazer uma fábula que desse razão ao seu medo de mudar - e inventou essa história do sono do Américo debaixo da jabuticabeira. Já reformei essa fábula.

O chão encheu-se de tantas cascas que Rabicó se aproximou, farejando. A Rãzinha, que ainda não conhecia o famoso Marquês, regalou-se de olhá-lo.
- Como está gordinho e lustroso, Emília! É ainda marquês?
- Que remédio? - berrou Emília. - Título é como apelido: quando agarra uma criatura não larga mais. Aqui nas vizinhanças temos um negro de 70 anos que tem o apelido de Tadinho. Sabe por quê? Porque quando nasceu todos começaram a tratá-lo de "Coitadinho" - depois "Tadinho" - e ficou Tadinho toda a vida, um negrão daqueles...
- Mas você, Emília, parece que nem mais se lembra de que é marquesa, não?
- Às vezes me lembro, mas sem prazer nenhum. Que gosto ser marquesa de um marquês assim? Meu sonho você bem sabe qual é...
- Sei - é ser mulher dum grande pirata, para mandar num navio. Por que então não se casa com o Capitão Gancho?
- Que ideia ! - exclamou Emília. - Não há pirata que mais desmoralize a classe do que esse. Primeiro não tinha um braço e agora nem navio tem. A sua "Hiena dos Mares" virou "Beija-Flor das Ondas", como você bem sabe - e hoje é de Pedrinho. Eu queria casar-me com um daqueles grandes piratas dos tempos do ouro do Peru, aqueles que atacavam os galeões espanhóis em pleno mar, com as facas atravessadas nos dentes. Há um, chamado Morgan, que me servia. Também já pensei num pirata submarino mas desisti. Submarino me dá falta de ar.

Rabicó apenas cheirou as cascas das laranjas. Só gostava de casca com gomos dentro.
- E a vaca Mocha? - perguntou a Rã. - Vai reformá-la também?
- Claro que sim - e já. Acompanhe-me. Lá se foram as duas para o pastinho da Mocha, que estava pachorrentamente mascando umas palhas de milho. Ficaram diante dela, de mãos à cintura, discutindo a reforma.
- Eu mudava o depósito de leite - disse a Rãzinha. - Punha torneirinha nas tetas para evitar o que hoje acontece: para tirar o leite os vaqueiros apertam as tetas com as suas mãos sujíssimas - uma porcaria. Com o sistema de torneira essas mãos não tocam nas tetas.

Emília deu uma risada gostosa.
- Que bobagem! Bem se vê que você é menina do Rio de Janeiro. Pois não sabe que a função das tetas é dar leite aos bezerros? Como pode um bezerrinho mamar em torneiras?
- Ensinávamos os bezerros a abrir as torneiras.
- Não - declarou Emília. - Muito complicado. Na Mocha quero umas reformas úteis para ela mesma e não para as criaturas que a exploram. Vou pôr a cauda da Mocha bem no meio das costas, porque assim como está só alcança metade do corpo. Como pode a coitada espantar as moscas que lhe sentam no pescoço, se o espanador só chega às costelas? Tudo errado ...
E plantou a cauda da Mocha no meio das costas de modo que pudesse espantar as moscas do corpo inteiro: norte, sul, leste, oeste. E passou as tetas para os lados, metade à esquerda, metade à direita.
- Assim podemos tirar leite de um lado enquanto o bezerrinho mama do outro. Deforma não é brincadeira. Precisa ciência.
- ótimo! - concordou a Rã. - E podemos botar torneirinhas nas tetas do lado direito - para serviço dos leiteiros. As do lado esquerdo ficam como são - para uso dos bezerrinhos.

Emília aprovou a ideia . Depois passaram a considerar os chifres.
- Toda vaca de respeito tem chifres - disse Emília - menos esta coitada, que é Mocha. Vou dar-lhe chifres compridos, mas sem ponta aguda.

A Rã lembrou que os esgrimistas usam floretes com um chumaço na ponta. Podiam dar à Mocha dois chifres pontudos mas com chumaço na ponta. Emília aperfeiçoou imediatamente a ideia .
- Em vez de chumaço, Rã, podemos espetar nas pontas uma bola de borracha maciça - uma bola "tirável", isto é, que possa ser tirada de noite.
- Para quê?
- Para que ela possa defender-se de algum ataque noturno. Os chifres são a única defesa dela, coitada.
- Mas que perigosos noturnos há por aqui?
- O das onças, minha cara. Tio Barnabé diz que uma antepassada desta Mocha foi comida por uma onça. De dia a Mocha pode usar a bola porque as onças só atacam durante a noite. 

E a Mocha foi armada de dois esplêndidos chifres elegantemente retorcidos como saca-rôlhas, com duas bolas maciças nas pontas - bolas "tiráveis.” O pêlo da vaca também sofreu reforma. Ficou macio como pelúcia e furta-côr. Estavam ocupadas na reforma da Mocha, quando passou por cima delas uma linda borboleta azul.

CAPÍTULO 5

Borboletas, moscas e formigas
Emília esqueceu a vaca e saiu correndo atrás da borboleta, a gritar:
- "Dessa não tenho ainda!" Mas não conseguiu pegá-la; cansadinha da corrida, explicou:
- Estou fazendo uma bela coleção de borboletas e dessas azuis não consigo. São das mais ariscas. Temos também de reformar as borboletas.
- Impossível, Emília! - gritou a Rã. - Tudo nelas é tão bem feito, tão direitinho e lindo, que qualquer reforma as estraga.
- Minha reforma das borboletas - explicou Emília - não é na beleza delas e sim no gênio delas. Quero que se tornem "pegáveis", como os besouros. Já reparou que besouro não foge da gente? Mansíssimos. Mas as borboletas, sobretudo destas azuis, são umas pestes de tão ariscas. Quando descubro uma sentada e me aproximo, ela "bota-se"!

E as borboletas azuis foram reformadas, ficando mansinhas como besouros.
- E as moscas? - perguntou a Rã.
- As moscas - respondeu Emília - vão ficar sem asas, porque são uns bichinhos inúteis e incômodos. Sem asas terão de andar pela terra, como as formigas, e num instante as formigas dão cabo de todas. Para que moscas no mundo? Suprimindo as asas, liquidaremos com as moscas.

- E os pernilongos também?
- Está claro. Esses ainda são piores, porque transmitem moléstias e fazem Dona Benta gastar muito dinheiro com Flit. O Visconde diz que a febre-amarela, a malária e outras doenças são transmitidas pêlos pernilongos. Corto-lhes as asas e adeus pernilongos, adeus febre-amarela, adeus malária...

A Rã alegou que isso vinha diminuir a música que há no mundo, porque os pernilongos cantam a música do Fiun e propôs outra reforma:
- Em vez de suprimir as asinhas deles, podemos fazer que percam o gosto pelo sangue e aprendam outras músicas além do Fiun. Poderão alimentar-se de água açucarada, ou mel das flores. E podemos fazer gaiolinhas minúsculas, de fios de cabelo, do tamanho de caixas de fósforos, para termos em casa pernilongos cantores. Seria uma galanteza. Um freguês chega a uma loja e pede: "Quero um pernilongo na gaiola, dos bons." E o caixeiro traz várias gaiolinhas para ele escolher, todas com um cantor do Fiun dentro. Mas acho os pernilongos pequenos demais. Eu os faria assim do tamanho de camundongos.
- Oh, não! - protestou Emília. - Sou inimiga do tamanho. Acho que as coisas quanto mais se aperfeiçoam, menores ficam.

A conversa caiu sobre o tamanho. Emília contou vários episódios do tempo em que ela destruiu o tamanho das criaturas humanas, como está contado na chave do Tamanho.
- O tamanho, Rã, é a tolice das tolices, coisa inútil, que só serve para atrapalhar. Se dentro duma formiguinha cabem todos os órgãos necessários à vida - coração, cérebro, pulmões e o mais, e se pequeninínhas como são elas se arranjam tão bem no mundo, por que motivo um tamanhão como o do Quindim, por exemplo? Se os homens fossem do tamanho de pulgas seriam mais felizes. A desgraça dos homens está no tamanho. O Coronel Teodorico tem quase dois metros de altura e pesa cem quilos. Mas que adianta? Nescora uma discussão com o Visconde, que pesa menos de meio quilo e só tem dois palmos de altura. Quando uma coisa começa a aperfeiçoar-se, vai perdendo o tamanho. Aqueles animalões de antigamente - os brontossauros, por exemplo. Por que desapareceram? Porque eram grandes demais. Não havia comida que chegasse. Hoje há poucos animais muito grandes, e parece que todos vão diminuindo. Já o número dos pequenos aumenta. Só de micróbios há milhões. Aqui no sítio nós fizemos guerra ao tamanho e empacamos. Ninguém cresce. Pedrinho e Narizinho estão parados há anos - como Peter Pan.

A Rã ficou triste e confessou que estava crescendo. Cada ano sua estatura aumentava e ela também aumentava de peso. Emília resolveu o caso:
- Pois pare. Faça como eu. Faça como o Visconde. Os mamíferos estão diminuindo de tamanho. Você é mamífera.

Dona Benta contou que no começo eram quase todos enormíssimos e hoje estão bem menores. E os que teimam em ficar grandes levam a breca. Por que os homens andam a matar se de todos os jeitos nas guerras? Por causa do tamanho. Se ficassem pequenininhos como os pulgões, todos viveriam na maior abundância e sem guerras. Dona Benta diz que a causa das guerras é a falta de comida, um homem como o Coronel Teodorico come uns dois ou três quilos de coisas por dia. Se fosse do tamanho duma pulga contentava-se com iscas de coisas. O que ele come num dia dá para alimentar um milhão de formigas por um mês. Se Dona Benta e tia Nastácia não conseguirem harmonizar os homens lá na Europa, eles continuarão a matar-se nas guerras até não ficar nem um só para remédio.
- E se acontecer isso, quem você acha que vai tomar conta do mundo? - perguntou a Rã.
- As formigas, disso não tenho a menor dúvida. São inteligentíssimas. As ideias delas, de fazerem suas cidades no fundo da terra, é a melhor ideia que existe. Só com isso já escapam de mil coisas, de cem mil perigos - até dos bombardeios aéreos. Que é que os homens fazem para se libertar dos bombardeios? Imitam as formigas - afundam pela terra adentro. Nas zonas arrasadas pela guerra não ficou animal nenhum - mas as formigas ficaram. Só elas - imagine que beleza!
- Mas as formigas me parecem atrasadas em muitos pontos - tornou a Rã. Nem asas têm...
- Como não têm? Têm quando querem. No tempo da "ovação" o céu fica cheio de formigas de asas. Depois descem para abrir buraquinhos e pôr os ovos, e a primeira coisa que fazem é sacudir o corpo e derrubar as asas. No mês de outubro vejo muito disso por aqui. A Rã ficou pensativa.
- Por que será que elas derrubam as asas, uma coisa tão preciosa?
- Porque só precisam de asas numa ocasião, quando sobem, bem, bem alto, em outubro, a fim de captarem as vitaminas do sol para os ovos. Depois que descem e abrem os buraquinhos já não precisam de asas. Iriam atrapalhá-las lá dentro.
- Mas deve ser muito escuro nos formigueiros - observou a Rã. - Eu gosto muito de luz, muita luz, só luz.
- Que engano! - exclamou Emília. - Você passa nove horas por dia de olhos fechados, dormindo, porquê? Para não ver a luz. Luz só, o tempo inteiro, cansa, atordoa a gente. As formigas usam o escuro à vontade. Quando saem dos formigueiros, regalam-se de luz; quando se recolhem, regalam se de escuro. Isso é que é saber viver. Só luz é tão horrível como só escuro. Por isso é que há a Noite e o Dia.
- E que reforma você pretende fazer nas formigas, Emília?
- Ah, nenhuma. Estudei o caso e vi que com elas nada há a reformar. Tudo perfeito. Eu dou um doce para quem descobrir um meio de melhorar a vida das formigas.

A Rã pensou, pensou e afinal concordou que é mesmo difícil melhorar a vidinha das formigas.

CAPÍTULO 6

Reformas na Europa e nas pulgas
Depois falaram da viagem de Dona Benta à Europa. A Rã achou que ela não conseguiria nada porque os homens são errados de nascença. Emília discordou.
- Eu conheço as idéia s de "vovó" - disse ela. - A primeira coisa que vai fazer na Conferência é transformar o mundo numa Confederação Universal. Todos os países ficarão fazendo parte dessa confederação, como os Estados dos Estados Unidos. E vai acabar com os exércitos e as marinhas, com os canhões e as metralhadoras.

A Rã, que entendia um pouco de política, achou que as grandes nações eram muito orgulhosas para se sujeitarem a ser simples Estados dum grande Estados Unidos.
- Pois se não se sujeitarem, pior para elas - declarou Emília. - Dona Benta acha que os homens devem formar no mundo uma coisa assim como as formigas. Elas são de muitas raças, ruivas, pretas, saúvas, sará-sarás, quenquéns, etc. mas vivem perfeitamente lado a lado umas das outras, sem se guerrearem, sem se destruírem. Se as formigas conseguem isso, porque os homens não conseguirão o mesmo - Mas acha que os grandes de lá - os reis, os ditadores, os homens importantes - vão seguir os conselhos de Dona Benta e tia Nastácia?
- E que remédio? - respondeu Emília. - Enquanto eles se guiaram pelas suas próprias cabeças só saiu piolho: desgraças e mais desgraças, destruições sem fim. Eles devem estar convencidos de que, apesar de toda a importância, não passam duns tremendos pedaços de asnos.

A Rã concordou.

À noite, quando foram dormir, ficaram as duas na mesma cama conversando até tarde da noite. O assunto era sempre o mesmo: reformas e mais reformas. Em certo momento uma pulga mordeu Emília. Ela acendeu a luz e pôs-se a caçá-la na brancura do lençol. Pegou-a, afinal. Enrolou-a bem enrolada entre os dedos e largou-a "para ver." E o que viu foi a pulga reviver e escapar aos pulos. Emília danou.
- É sempre o que me acontece! Esfrego, enrolo as pulgas e elas se desesfregam, se desenrolam e saem pulando. Tenho também de reformar as pulgas.
- Como?
- Poderei fazê-las molinhas como qualquer mosca. Já reparou que, para o tamanho que têm, as pulgas são a coisa mais rija que existe no mundo? Mais rijas que borracha... E também vou mudar a velocidade do pulo das pulgas. Paço pulos em câmara lenta, de modo que a gente possa pegá-las no ar com a maior facilidade, como se estivéssemos colhendo uma bolotinha.

A Rã lembrou um "melhoramento" ainda melhor.
- E se cortássemos o pulo das pulgas pelo meio? - disse ela. Emília não entendeu.
- Cortar, como?
- A pulga pula. Quando chega no ponto mais alto do pulo, para. Fica paradinha no ar, como um ponto final. E a gente, sossegadamente, a pega e a estala entre as unhas. Gosto muito de ouvir o estalinho das pulgas. É o único inseto que tem essa habilidade.
- As baratas também sabem estalar - lembrou Emília.
- Cada vez que Narizinho pisa numa, ela estala. É a linguagem das pulgas e das baratas. E também dos chicotes.

Pedrinho tem um chicote que é mestre em estalos.

CAPÍTULO 7

Os odres vivos e o peso
A Rã falou nos percevejos, uns bichinhos inexistentes ali no sítio, e teve de contar a história dos percevejos do Rio.
- São fedorentíssimos - disse ela. - Eu tenho verdadeiro horror a esses monstros noturnos. Chupam o sangue da gente durante o sono e ficam gordos que mal podem andar. E quando esmagamos um, Emília, ah, que cheiro! Empesta o ambiente. Eu, só de me lembrar, já sinto enjoo de estômago.

Emília teve uma ideia .
Pois podemos reformar os tais percevejos dum modo muito simples: fazendo que em vez de mau cheiro eles tenham cheiros deliciosos, melhores que todas as essências das perfumarias. Desse modo eles ficarão importantíssimos no mundo. Serão pequenos odres vivos cheios de perfume. Sabe o que é odre?

A Rã sabia. Lembrou-se logo daqueles odres de vinho que D. Quixote espetou com a espada, derramando todo o vinho do estalajadeiro.
- Pois é - continuou Emília. - São vasilhas de pele ou couro que a gente de dantes usava. Dona Benta tem um pequeno odre de borracha que enche de água quente para aquecer os pés nos dias muitos frios - mas não diz odre - diz "a minha bolsa d’água. Quem tirou a minha bolsa d’água lá do banheiro? E é sempre Pedrinho quem mexe na bolsa, para certas reinações. Pois os percevejos poderão ficar odres vivos com perfumes dentro. E as perfumarias podem fazer criações de percevejos de todas as qualidades. As moças chegam e pedem: "Quero uma dúzia de percevejos Bouton d'or, ou Kananga do Japão, ou Heliotropo", e quando quiserem perfumar-se basta que tirem um do chiqueirinho de cristal (que irão ter em seus toucadores) e o espremam no lenço, no peito, na nuca, na ponta das orelhas. E saem para a rua, todas vaidosas. E quando duas se encontram, uma pergunta para a outra: "Que percevejos você usa, Quinota? Dos nacionais ou estrangeiros?" E a Quinota, que é moça grã-fina, responderá orgulhosamente: "Só uso percevejos de Paris, da criação de Coty" - e lá se vai rebolando que nem uma cotia.

A Rãzinha aprovou a ideia - e de ideia em ideia as duas chegaram ao peso. Emília implicava-se com o peso das coisas. Cada vez que queria mover um objeto, uma cadeira ou um pedaço de pau, tinha de chamar o Visconde ou tia Nastácia.
- Para que peso? - disse ela. - Se as coisas não tivessem peso o mundo seria muito mais interessante. Eu acho as cadeiras pesadíssimas, coitadas. Só gente grande pode com elas. Vamos reformar a cadeirinha de pernas serradas de Dona Benta? 

Como essa famosa cadeira estivesse ali no quarto, fizeram imediatamente a reforma: suprimiram lhe o peso. Mas aconteceu uma coisa imprevista. A pobre cadeira ergueu-se no ar e ficou grudada ao forro. As duas reformadoras espantaram-se daquilo. Súbito, Emília compreendeu o fenômeno e berrou:
- Já sei! O Visconde me explicou isso. O peso é o que prende as coisas à superfície da terra. Ele diz que o peso vem duma tal força da gravidade, que puxa todas as coisas para o centro da terra. Essa força da gravidade é a atração, ou força centrípeta. Você não imagina, Rã, como o Visconde sabe coisas! Um danadinho! Ele disse também que o contrário da força centrípeta é a força centrífuga - que em vez de puxar as coisas para o centro da terra. Foi o que aconteceu com a cadeira de Dona Benta. Como nós destruímos o peso dela, a força centrípeta desapareceu, só ficando a força centrífuga - e lá foi a cadeira parar no forro. E se este quarto não tivesse forro, a pobre cadeira se sumiria para sempre no espaço infinito ...

Aquela experiência fez que Emília respeitasse o peso de todas as outras coisas, pois do contrário o sítio ficaria mais nu de objetos do que a cabeça do Quindó da farmácia era nua de cabelos. Nisto o cuco lá da sala de jantar começou a dizer as horas - hu-hu, hu-hu ... Emília contou dez.
- Dez horas já! Como é tarde ... Por isso é que estou sentindo tanto sono. Está aí uma coisa, Rã, que podemos reformar: o sono - ah, ah, ah... e bocejou.
- Como? - quis saber a Rã.
- Podemos, por exemplo... - começou Emília, mas abriu a boca, soltou mais três "ahs" e foi fechando os olhinhos - e o sono das criaturas humanas escapou da reforma.

Emília dormiu - e que lindo soninho! Como ela sabia dormir bem! A Rã reclinou-se na cama; com a cabeça apoiada numa das mãos e o cotovelo fincado no travesseiro, ficou a contemplá-la e a imaginar mil coisas. - "Que pena as crianças do mundo não poderem ver o que estou vendo!" - pôs-se a pensar lá consigo. - "Emília dorme como um anjo. E quem sabe se Emília não é de fato um anjo do céu que anda pelo mundo disfarçado em gentinha?” - e examinou-lhe as costas para ver se não havia algum sinal de toco de asa. Havia, sim, duas leves saliências com muito jeito de serem tocos de asas - e a Rã ficou na dúvida. Seria realmente um anjo disfarçado em gentinha"?

A Rã adorava a Emília. Sabia de cor todas as travessuras da Emília, todas as "piadas" da Emília, todas as asneirinhas da Emília, todas as mas criações da Emília, e agora considerava-se a menina mais feliz do mundo, porque entre todas as meninas do mundo só ela estava tendo o privilégio de ver a maravilha das maravilhas que era o soninho da Emília.
- Ah, quando as outras souberem! Quando souberem que eu estive aqui, falando com ela, brincando com ela, deitada na caminha dela, vendo-a dormir e sorrir ...

Algum sonho lindo devia andar reinando na cabeça da Emília, a avaliar pelo sorriso de enlevo que animava o seu rostinho moreno - moreno claro. "Nem isso as outras meninas sabem", pensou consigo a Rã, "que a Emília é moreninha cor de jambo. Nem sabem que tem cabelos castanhos - castanho escuro", e aproveitou-se da ocasião para arrancar um daqueles fios, o que fez Emília trocar o sorriso do sonho por uma caretinha. A Rã enrolou o fio de cabelo, murmurando mentalmente: "Vou guardá-lo no meu exemplar das REINAÇÕES. Fica sendo o meu marcador de página.”

Longo tempo ficou a Rã a admirar aquela prodigiosa criaturinha que nasceu boneca de pano das mais ordinárias e foi evoluindo até tornar-se o que já era. E um pensamento lhe acudiu: "E se ela continua a evoluir e vira anjo de verdade, dos de asas, e foge para o céu? Ou se vira fada, como aquela fada Sininho do Peter Pan?" E a imaginação da Rã começou a cabriolar que nem cabritinho novo até que o primeiro "ah, ah, ah!" do sono veio, e depois veio um segundo - e afinal dormiu também.

CAPÍTULO 8

No dia seguinte
No dia seguinte pularam da cama muito cedo e retomaram a obra de reforma da Natureza. Tudo era examinado e reformado no que lhes parecia torto. A Rãzinha continuava com as ideias mais absurdas, de verdadeira maluca. 

A reforma do Quindim, por exemplo, que a Rã fez sozinha, era a coisa mais esquisita que se possa imaginar. Em vez do famoso chifre sobre o nariz, que é característico de todos os rinocerontes, a Rã botou uma flecha de Cupido com um coração assado na ponta. Assado, imaginem! E ornamentou os cascos de Quindim com pinturas: Branca de Neve com todos os seus anões. E trocou as quatro pernas do rinoceronte por quatro pernas diferentes - uma de veado, outra de ganso, outra de jacaré, outra de pau. E substituiu aquele couro duríssimo por um revestimento muito bem trançado de palhinha de cadeira. Cauda, botou duas; depois três, depois dez, depois cem; deixou-o com um verdadeiro varal de caudas dando volta inteira em redor do pobre animal.

A reforma do Quindim saiu um tal disparate que nem andar ele podia - uma perninha não acompanhava a outra, e havia a tremenda atrapalhação de tantas caudas, todas diferentes, umas com bolas na ponta, outras com espinhos de ouriço, outras com campainhas.

Quando Emília foi ver a "obra", não pôde deixar de rir se. Aquilo era o "bissurdo dos bissurdos." Quindim estava transformado num verdadeiro destampatório.
- Isso não é reformar, Rãzinha! - disse ela. - Isso é escangalhar com uma pobre criatura. Ele já não é rinoceronte, nem nenhum bicho possível. Virou quarto de badulaques, baú de mascate. Que judiação! ...
- E você deixa que ele fique assim? - implorou a Rã, com medo que Emília desmanchasse aquela obra-prima do disparate humano.
- Deixo por enquanto - respondeu Emília - como castigo da preguiça, da velhice e neurastenia que ele anda mostrando duns tempos para cá. No dia do plebiscito sobre o tamanho Quindim me traiu - recusou-se a votar. A falta desse voto deu vitória ao Tamanho e eu saí lograda. Agora que aguente. Mais tarde vou reformá-lo de novo, mas com critério científico ...

A Rã ou era mesmo maluca ou estava "sabotando" a obra reformatória da Emília. Todas as idéias que apresentava eram tontas, como aquela da mudança dos morros. A Rã tomou um lápis e traçou um desenho assim:
- Que é isso? - perguntou Emília.
- Ah, isto é uma das reformas que acho mais necessárias: as reformas dos morros. Sempre que tenho de subir um morro, fico cansada e sem fôlego. E então imaginei uma coisa assim: os picos serão para baixo, em vez de serem para cima, de modo que quando a gente tem de ir ao pico dum morro, desce, em vez de subir ...

Emília ficou a olhar, ora para a Rã ora para o desenho. Era uma reforma que deixava tudo na mesma. Quando alguém que descesse ao pico do morro tivesse de voltar, teria de subir para o vale...
- Não. Essa ideia está boba. Muito melhor fazermos os morros bem baixinhos, de modo que não canse a gente; ou então deixarmos os morros em paz. Para que subir morro?

CAPÍTULO 9

O livro comestível
A maior parte das ideias da Rã eram desse tipo. Pareciam brincadeiras, e isso irritava Emília, que estava tomando muito a sério o seu programa de reforma do mundo. Emília sempre foi uma criaturinha muito séria e convencida. Não fazia nada de brincadeira.
- Parece incrível, Rã! - disse ela. - Chamei você para me ajudar com ideia na reforma, mas até agora não saiu dessa cabecinha uma só coisa aproveitável - só "desmoralizações ...”
- Isso não! A ideia das tetas com torneiras na Mocha foi minha e você gostou muito. A da pulga também.
- Só essas. Todas as outras eu tive de jogar no lixo. Vamos ver mais uma coisa. Que acha que devemos fazer para a reforma dos livros? A Rãzinha pensou, pensou e não se lembrou de nada.
- Não sei. Parecem-me bem como estão.
- Pois eu tenho uma ideia muito boa - disse Emília. - Fazer o livro comestível.
- Que história é essa?
- Muito simples. Em vez de impressos em papel de madeira, que só é comestível para o caruncho, eu farei os livros impressos em um papel fabricado de trigo e muito bem temperado. A tinta será estudada pêlos químicos - uma tinta que não faça mal para o estômago. O leitor vai lendo o livro e comendo as folhas; lê uma, rasga-a e come. Quando chega ao fim da leitura está almoçado ou jantado. Que tal?

A Rãzinha gostou tanto da ideia que até lambeu os beiços.
- ótimo, Emília! Isto é mais que uma idéia-mãe. E cada capítulo do livro será feito com papel de um certo gosto. As primeiras páginas terão gosto de sopa; as seguintes terão gosto de salada, de assado, de arroz, de tutu de feijão com torresmos.

As últimas serão as da sobremesa - gosto de manjar branco, de pudim de laranja, de doce de batata.
- E as folhas do índice - disse Emília - terão gosto de café - serão o cafezinho final do leitor. Dizem que o livro é o pão do espírito. Por que não ser também pão do corpo? As vantagens seriam imensas. Poderiam ser vendidos nas padarias e confeitarias, ou entregues de manhã pelas carrocinhas, juntamente com o pão e o leite.
- Nem precisaria mais pão, Emília! O velho pão viraria livro. O Livro-Pão, o Pão-Livro. Quem soube ler, lê o livro e depois come; quem não souber ler come-o só, sem ler. Desse modo o livro pode ter entrada em todas as casas, seja dos sábios, seja dos analfabetos. Otimíssima ideia , Emília!
- Sim - disse esta muito satisfeita com o entusiasmo da Rã. - Porque, afinal de contas, isso de fazer os livros só comíveis para o caruncho é bobagem - podemos fazê-los comíveis para nós também.
- E quem deu a você essa ideia , Emília?
- Foi o raciocínio. O livro existe para ser lido, não é?

Mas depois que o lemos e ficamos com toda a história na cabeça, o livro se torna uma inutilidade na casa. Ora, tornando se comestível, diminuímos uma inutilidade.
- E quando a gente quiser reler um livro?
- Compra outro, do mesmo modo que compramos outro pão todos os dias.

A ideia , depois de discutida em todos os seus aspectos, foi aprovada, e Emília reformou toda a biblioteca de Dona Benta. Fez um papel gostosíssimo e de muito fácil digestão, com sabor e cheiro bastante variados, de modo que todos os paladares se satisfizessem. Só não reformou os dicionários e outros livros de consulta. Emília pensava em tudo. Também reformou muita coisa na casa. Por meio de cordas e carretilhas as camas subiam para o forro de manhã, depois de desocupadas, a fim de aumentar o espaço dos cômodos. As fechaduras não precisavam de chaves; bastava que as pessoas pusessem a boca no buraco e dissessem: "Sésamo, abre-te" e elas se abriam por si mesmas.
- E os mudos? - perguntou a Rãzinha. - Como vão arrumar-se? Só se eles andarem com uma vitrola no bolso, que pronuncie por eles a palavra Sésamo.
 
Emília atrapalhou-se com o caso dos mudos e deixou-o para resolver depois. O leite a ferver ao fogo dava um assobio quando chegava no ponto, de modo a avisar ao fogo, o qual imediatamente parava de agir. O mesmo com todas as comidas - e dessa maneira acabou-se a desagradável história do "feijão com bispo.” E tanta e tanta coisa as duas fizeram, que se fôssemos contar metade teríamos de encher dois volumes. Lá pelo fim da semana o Sítio do Pica-pau estava totalmente transformado, não dando a menor ideia do antigo. Foi por essa ocasião que chegou carta de Dona Benta anunciando a volta.
- "Já concluímos o nosso serviço na Europa" - dizia ela.
- "Deixamos o continente transformado num perfeito sítio - com tudo direitinho e todos contentes e felizes. A Comissão que nos trouxe vai reconduzir-nos para aí novamente. Devemos chegar na próxima segunda-feira e espero encontrar tudo em ordem.”

Emília leu a carta para a Rãzinha, dizendo: "É uma danada, esta velha! Foi lá e fez o que todos aqueles ditadores e reis não conseguiram. Temos agora de preparar a casa para recebê-la.”

CAPÍTULO 10

A volta de Dona Benta
No dia marcado, ali pelas dez horas da manhã, Emília e a Rãzinha ouviram rumor de automóvel na estrada. Correram à varanda. Vinha vindo uma porção de carros, com Dona Benta, tia Nastácia e os meninos no da frente. Ao entrarem no terreiro Emília adiantou-se para recebê-los. Os homens da Comissão apearam e despediram-se de Dona Benta com muitas palavras de agradecimento e amabilidades.
- Pois é isso - disse-lhes a boa velha. - Sigam lá na Europa as minhas instruções que tudo dará certo. Adeus, adeus! Mil recomendações ao Rei Carol e ao Duque e à Duquesa de Windsor - gostei muito dela. E digam ao Mussolini e ao Hitler que apareçam quando puderem, para um passeio no Quindim. Adeus, adeus!

Os automóveis da Comissão partiram na voada. Depois que desapareceram lá na curva, Dona Benta entrou para a saleta com os meninos e tia Nastácia foi para a cozinha. Mas ... que era aquilo? Não estavam reconhecendo a velha saleta da entrada. Tudo esquisito, tudo diferente.
- Que é isto, Emília? Que significam estas mudanças? Emília contou tudo.
- Eu reformei a Natureza - disse ela. - Sempre tive a idéia de que o mundo por aqui estava tão torto como a Europa, e enquanto a senhora consertava a Europa eu consertei o sítio.
- Consertou o sítio?!... - repetiu Dona Benta sem entender coisa nenhuma. - Que história é essa? Narizinho interveio:
- Eu bem disse, vovó, que ela queria ficar sozinha para fazer coisas malucas. Fui lá ao meu quarto e encontrei a cama pendurada no forro, imagine ! ...
- E eu - disse Pedrinho entrando - fui à biblioteca e encontrei os seus livros cheirando a alho e cebola. Abri um, provei: gosto de sopa; páginas adiante, gosto de carne assada ...

O assombro de Dona Benta não tinha limites e por mais que Emília explicasse ela ficava na mesma. Súbito, deu com a Rãzinha.
- Quem é esta menina? - perguntou.
- É a Rã.
- Que rã?
- A Rãzinha da Silva, minha amiga do Rio, que veio ajudar-me na reforma da Natureza.

O assombro de Dona Benta crescia, e cresceu ainda mais quando tia Nastácia apareceu aos berros.
- Sinhá, Sinhá, está tudo esquisito lá na cozinha ! Pus o leite no fogo; assim que começou a ferver, assobiou! ...
- Assobiou, o leite, Nastácia?
- Sim, Sinhá, assobiou, e o fogo no mesmo instantinho apagou por si mesmo. Aquilo está com feitiçaria, Sinhá. Andou alguma bruxa por aqui...
- A bruxa é ela - disse Narizinho apontando para Emília. - Diz que reformou a Natureza ... Dona Benta não voltava a si do espanto.
- Mas que absurdo, Emília, reformar a Natureza! Quem somos nós para corrigir qualquer coisa do que existe? E quando reformamos qualquer coisa, aparecem logo muitas consequências que não previmos. A obra da Natureza é muito sábia, não pode sofrer reformas de pobres criaturas como nós. Tudo quanto existe levou milhões de anos a formar-se, a adaptar-se; e se está no ponto em que está, existem mil razões para isso.
- Não acho! - contestou Emília cruzando os braços. - A obra da Natureza está tão cheia de "bissurdos" como a obra dos homens. A Natureza vive experimentando e errando. Dá cem pés à centopéia e nem um para as minhocas - por que tanta injustiça? Faz um pêssego tão bonito e deixa que as moscas ponham ovos lá dentro e dos ovos saiam bichos que apodrecem a linda carne dos pêssegos - não é uma judiação? Veste os besouros com uma casca grossa demais e deixa as minhocas mais nuas do que a careca do Quindó - isso é erro. Quanto mais observo as coisas mais acho tudo torto e errado. Mas sem demora começou a ser desmentida. 

Um tico-tico entrou na sala e disse com muito desespero para Dona Benta:
- Minha boa senhora, livrai-me do que a Emília fez em mim. Transformou-me em passarinho ninho, com ovos às costas, e isso tem sido uma atrapalhação medonha, porque não me deixa voar com desembaraço, e desse modo não consigo escapar aos meus perseguidores.
- Que história de passarinho-ninho é essa?
- perguntou Dona Benta, e quando soube de tudo abriu a boca. Era demais a ousadia da Emília. Alterar daquele modo a Natureza! Mudar as coisas que levaram milhões de anos para se equilibrarem ... E agarrando o tico-tico desfez-lhe o ninho das costas e guardou os três ovos para pô-los no ninho natural que ele fizesse pelo sistema antigo.

Estava ainda a lidar com a pobre ave, quando Pedrinho apareceu de novo, muito assustado.
- Vovó, o que aconteceu aqui no sítio parece até um sonho! Encontrei Quindim completamente transformado, com couro de palhinha, a Branca de Neve com os anões pintados no casco, quatro pernas diferentes, cem rabos, e em vez de chifre uma seta de Cupido com um coração na ponta. Imagine! Não dá a menor ideia dum bicho possível ! ...

A boca de Dona Benta abriu de caber dentro uma laranja.
- E o Rabicó, então? - continuou Pedrinho.
- Está com cauda de cachorro luiu, toda frisadinha, e só com dois pés - e pés de tartaruga. E com uma ratoeira no focinho e um lenço automático no nariz!...
- Sinhá! Sinhá! - voltou tia Nastácia berrando. - O mundo está perdido. Já não entendo mais nada. Fui ver a Mocha e sabe o que encontrei? Um bicho sem propósito, com a cauda no meio do lombo, chifre de saca-rôlha com bola de borracha na ponta, e as tetas fora do lugar, com duas torneirinhas, Sinhá, imagine! E o chão anda cheio de moscas sem asa. E um pernilongo cantou no meu ouvido uma música tal e qual aquela que lá na Conferência sêo "Churche" mandou os músicos tocarem para a senhora ouvir - direitinho! Eu não fico mais nesta casa nem um minuto. Isto virou "hospiço" de feiticeiros, Sinhá! Tudo atrapalhado, sem jeito. Ninguém entende nada de nada. Fui encontrar a sua cadeirinha, Sinhá, pregada lá no forro! Subi na escadinha de lavar vidraça, peguei a cadeira pela perna e puxei - e quem disse da cadeira descer? Parece que está pregada no forro com elástico. A gente larga dela e ela sobe outra vez.
- É a força centrípeta - explicou a Rã.
- Centrífuga - corrigiu Emília - e contou a história da supressão do peso.

Tia Nastácia passava a mão num galo que tinha na testa. A negra estava verdadeiramente zonza.
- E ainda tem mais, Sinhá - disse ela. - Imagine que me sentei debaixo da jabuticabeira, e sabe o que aconteceu? De repente uma coisa enorme caiu lá do alto em cima da minha cabeça. Era uma abóbora, Sinhá! Uma abóbora deste tamanho! Fiquei tonta uma porção de tempo, nem sei como não morri. As abóboras andam agora nas jabuticabeiras, Sinhá. Veja que "bissurdo."

CAPÍTULO 11

Nem tudo Emília perdeu
Dona Benta estava examinando o galo da testa da negra, quando ouviu umas batidinhas na porta. Mandou que Narizinho abrisse. Eram as jabuticabas.
- Dona Benta - disseram elas muito zangadinhas - viemos queixar-nos da peça que a Emília nos pregou. Imagine que nos transferiu dos nossos galhos na mamãe-jabuticabeira para um pé de abóbora - uns talos molengões que andam pelo chão. E ficamos presas ali, encostadas à terra, a nos sujar de pó e ciscos. Ora, isso é um despropósito, porque somos frutas de galho e não do chão, como certos porcalhões que conhecemos.

(A Rãzinha cochichou para a Emília: "Isso deve ser indireta para os morangos.")
- Vocês têm razão, jabuticabinhas - disse Dona Benta - e vou repô-las todas no lugar certo. Impossível admitir que umas criaturas delicadas como vocês andem pelo chão. Chão é bom só para abóbora.

E voltando-se para Emília:
- Vá já desfazer o que fez! - ordenou rispidamente.

Emília fez beicinho e disse para a Rã: "Ela era democrática quando saiu daqui. Depois que lidou com os ditadores da Europa, voltou autoritária e cheia de "vás". "Pois não vou" - e não foi! As abóboras e as jabuticabas tiveram de arrumar-se sozinhas.

Pedrinho veio dizer que as laranjas das laranjeiras estavam descascadas, e havia um milhão de passarinhos em cima, dando cabo de todas.

Dona Benta explicou:
- Emília, eu reconheço as suas boas intenções. Você tudo fez na certeza de estar agindo pelo melhor. Mas não calculou uma porção de inconveniências que podiam acontecer - e estão acontecendo. As laranjas, por exemplo: seria ótimo se pudessem vir já descascadas - mas se fosse assim tornava se impossível o comércio das laranjas, o transporte de um ponto para outro. E, além disso, descascadas elas ficam muito mais sujeitas aos ataques das aves e insetos. A casca é uma defesa indispensável. Assim também as abóboras na jabuticabeira. São frutas muito grandes para ficarem em árvores; a Natureza sabe o que faz. Põe as frutas grandes no chão e as pequenas em árvores.
- Isso não! - protestou Emília. - A maior fruta que eu conheço é a jaca, e a jaca é fruta de árvore, ah!

Dona Benta embatucou.
- Também fiz que as frutas das árvores dessem só nos galhos debaixo - continuou Emília, de modo a facilitar a colheita - e quero ver o que a senhora diz a isto.

Dona Benta declarou que essa reforma só era aceitável do ponto-de-vista humano, mas explicou que as frutas não existiam para que nós as apanhássemos e comêssemos - existiam para o bem da árvore, e apareciam em todos os galhos, tanto os debaixo como os de cima, porque assim ficavam mais bem distribuídas pela árvore inteira, podendo vir em maior quantidade.
- Os galhos debaixo serão só metade dos galhos da árvore toda - disse ela. - Fazendo que as frutas só apareçam nos galhos debaixo, você diminui de metade o número de frutas de uma árvore.

Emília concordou que havia errado, e em companhia da Rãzinha foi restabelecer o sistema antigo.
- Agora, sim - ia dizendo Emília - agora ela deu uma razão boa, clara, que me convenceu e por isso vou desmanchar o que fiz. Mas com aquele "Vá!" do começo, a coisa não ia, não! Vá o Hitler. Vá o Mussolini. Comigo, é ali na batata da convicção, do argumento científico!

E dessa maneira quase todas as reformas da Emília foram anuladas, mas nenhuma delas por imposição de Dona Benta. A boa senhora argumentava, provava o erro - e então a própria Emília se encarregava de restabelecer o velho sistema. Mas mesmo assim muitas das reformas ficaram, como, por exemplo, a dos livros.
- Sim, Emília, esta ideia do livro comestível me parece ótimo, um verdadeiro achado. Mas não para todos os livros. O bom é que haja o livro de papel e ao seu lado o livro comestível. Quem quiser comprar um, quem quiser compra outro. As coisas novas jamais substituem inteiramente as coisas velhas. Lembre- se de que em Nova Iorque, a cidade que tem mais automóveis no mundo, nós vimos as carroças que entregam leite de manhã puxadas por cavalos. Aprovo a ideia do Livro-Pão e hei de propor a um industrial meu conhecido que estude o problema e crie a nova indústria. Mas você me vai fazer o favor de deixar meus livros como eram, porque se não ...

Nesse momento Pedrinho entrou correndo na sala, muito afobado.
- Vovó, imagine o que aconteceu! O Rabicó entrou na sua biblioteca e devorou a Ilíada de Homero e as obras completas de Shakespeare...
- Se não tivessem tirado do focinho dele a ratoeira, nada teria acontecido - disse a Rã. - Bem feito!
- Vê, Emília? - disse Dona Benta. - Nem todos os livros devem ser comestíveis, mas só os de importância secundária, meramente recreativos ou então os livros ruins. Um livro que não presta para ser lido, ao menos que preste para ser comido. E agora? Como vou passar sem a minha Ilíada e o meu Shakespeare?

Emília concordou que realmente nem todos os livros deviam ser comestíveis e indo à biblioteca "descomestibilizou” a maior parte - menos os "ruins.”

E assim terminou a aventura emiliana da Reforma da Natureza. Emília aprendeu a planejar a fundo qualquer mudança nas coisas, por menor que fosse. Viu que isso de reformar às tontas, como fazem certos governos, acaba sempre produzindo mais males do que bens.

A Rãzinha ficou por lá uma semana, a ouvir as histórias que Dona Benta contava da Conferência da Paz. Depois, com muita dor de coração e com muito pesar de todos do sítio, cheirou o pó do fiun - e lá se foi para o Rio de Janeiro, onde encontrou sua pobre mãe de luto e de olhos vermelhos, certa de que sua querida filha tinha desaparecido para sempre.
- Perdoe, mamãe. Entusiasmei-me demais com o programa de reformas da Emília e fui para o Pica- pau Amarelo sem dizer nada à senhora. Nunca mais farei isso. Já me reformei nesse ponto.
- E que mais?
- Ah! Tia Nastácia gostou muito do leite que assobiava ao ferver e conservou o sistema.
- Era uma consumição este negócio do leite - disse ela. - Eu tinha de ficar de plantão ali na cozinha, se não ele fervia e derramava. Agora, não. Ponho o leite no fogo e nem penso mais nisso. Uma gostosura. A Emília é mesmo uma danadinha. Outra coisa de que gostei muito foi o que ela fez com as pulgas. Entrei no meu quarto e vi uns pontinhos pretos parados no ar. Peguei um. Olhei. Era pulga, Sinhá, pulga parada no ar - e pulga mole, Sinhá, mole como qualquer bichinho mole! Essa reforma foi boa, porque quanto mais velha fico, mais me custa pegar uma pulga daquelas do sistema antigo ...

Dona Benta aprovou a mudança das pulgas e também a das moscas e pernilongos. E com a sua grande sabedoria de filósofa, disse:
- Está bem, Emília. Vou examinar detidamente todas as reformas que você fez, porque estou vendo que há muita coisa aproveitável.

Emília piscou vitoriosamente para o Visconde.

Por Geraldo Genetto Pereira
Professor, escritor, blogueiro, youtuber.
Formação: Licenciatura e Mestre em Letras pela UFMG.

Novidade!

8º ano do Ensino Fundamental Língua Portuguesa

  QUESTÃO   1                                                              VALOR: 0,60                       NOTA:_______ Observe os três ...